O psicopata nosso de cada dia.

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Você já teve o desprazer de lidar com um psicopata (ou vários), estou certa. Então vai entender meu grito contra duas ideias do filme “Whiplash”.

Não me entenda mal: o filme é incrível, te mantém preso à cadeira do primeiro ao último minuto, possui um roteiro redondo, atuações impecáveis, mas é preciso notar que os protagonistas defendem, cada qual, filosofias de vida mais que equivocadas: danosas.

Temos Terence Fletcher, um professor de música psicopata. Sem meias-tintas: psicopata, sádico, manipulador, prepotente, desonesto. Sua capacidade técnica e seu carisma são inquestionáveis. Ainda assim, nada muda o fato dele ser um psicopata, sádico, manipulador, prepotente, desonesto.

Temos Andrew Neiman, um aluno de bateria apaixonado por seu instrumento, mais que dedicado: obsessivo.

Numa escola de alto nível eles colidem. Fletcher, o professor, faz o que sabe fazer melhor, ser um psicopata, e Neiman se esforça para corresponder às exigências estapafúrdias de seu mestre tirânico.

Os psicopatas que matam corpos são poucos. Os que ferem, dominam, achacam, pisoteiam, manipulam, roubam, humilham, agridem, estupram, retalham nossas almas estão à solta e sob camuflagens as mais variadas: às vezes são nossos professores, às vezes pais, às vezes amigos, às vezes namorados.

Tal qual o professor de “Whiplash”, esses psicopatas da vida real se apropriam de discursos plausíveis nos quais inserem algumas distorções sutis (que modificam completamente os resultados) e assim conseguem impor suas ideias tortas e se justificar. Não se engane: são monstros. Muito inteligentes e persuasivos, nem por isso menos monstruosos.

Fletcher diz que não se arrepende por torturar seus alunos, pois apenas sob o fogo dessa tortura é possível provocar a dedicação necessária a fim de torná-los músicos excepcionais. Quem não suporta o processo, continua Fletcher, apenas prova que não possui a firmeza do gênio.  É preciso disciplina nos estudos, o conceito em tese é correto, Fletcher, porém, faz as tais distorções que justificam seu comportamento doente. Submetidas ao seu sadismo há pessoas que se suicidam, que seguem de almas mancas para toda a vida, que abdicam de um sonho por serem sensíveis demais. Monstros sempre vencem – se a gente se deixar enganar.

Depois de suportar o insuportável, Neiman dá a volta por cima, para ser, em questão de minutos, dominado pelo professor que, além de retomar o controle, termina o filme trocando com seu aluno um olhar de suposta cumplicidade que justificaria sua didática primata. Não, não! Neiman não se tornou um virtuose por causa da tortura imposta pelo professor: ele se tornaria um gênio da bateria com ou sem Fletcher, mas, infelizmente, o filme dá a entender o contrário.

Por fim, mas não menos importante: num jantar, Neiman diz que preferiria morrer jovem, sem grana e drogado como Charlie Parker a viver 90 anos tranquila e anonimamente. Ora, Charlie Parker, Jimi Hendrix, Janes Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse não se tornaram lendas por terem se enfiado até o pescoço nos vícios. Estamos falando e continuaremos a falar deles apenas por uma coisa: seu imenso talento musical. Eles eram talentosos apesar dos vícios, não por causa deles. Esse endeusamento dos excessos, da vida louca, do viver 10 anos a 1000, é um equívoco absoluto – muito usado, aliás, pela propaganda para nos vender produtos desnecessários.

Portanto, se você não assistiu Whiplash, por favor, assista. Mas não se esqueça de que os psicopatas e suas ideias horrendas, disformes, anormais, estão camuflados em muitos lugares, inclusive em nossas vidas e nos bons filmes.

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