Uma carta de desamor (livro “Os Indecentes”).

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Há algum tempo, condoída pelo fora que uma amiga levara, escrevi um texto de presente para ela: uma carta de desamor.

Na época, fez bem a ela ter a experiência materializada em texto: texto que poderia ser entregue ao dito cujo (e foi), texto que poderia ser impresso e simbolicamente queimado (e foi), texto que poderia fazê-la erguer a cabeça e a autoestima (e fez).

Se ele ajudou uma pessoa, pode ajudar duas, três, quatro… Acrescente o que você quiser ao miolo dessa carta e torne-a sua: o final (um dos meus mantras preferidos) é o que realmente importa.

***

Me desculpe por eu ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter almoçado com você tantas vezes. Me desculpe por ter te escrito naquela primeira noite.

Me desculpe pela chuva que tomamos subindo a Augusta. Me desculpe por ter acreditado nas suas mensagens. Me desculpe por ter rido das suas piadas.

Me desculpe pelos machucados que sua ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo atrás dela. Me desculpe por tentar entender seu silêncio.

Me desculpe por ter dito “sim”. Me desculpe por ter gemido. Me desculpe por eu ter gozado.

Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe por eu ter subestimado o que foi ruim e superestimado o que foi bom.

Me desculpe por eu não ter usado máscaras. Me desculpe por querer mais. Me desculpe por supor que você também quisesse mais.

Me desculpe por eu ter tirado a roupa. Me desculpe por eu ter mostrado meu corpo. Me desculpe pela cinta-liga que eu comprei só para você.

Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonito. Me desculpe por, em algum momento, eu ter acreditado que você era o homem da minha vida.

Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português da sua nova namorada. Me desculpe por a sua nova namorada achar que margaridas são flores menos nobres.

Me desculpe pelos 130 quilômetros de congestionamento que eu atravessei para te ver. Me desculpe pela barata que eu tive de matar na sua cozinha. Me desculpe por eu ter permitido que você deixasse a TV ligada no jogo do Palmeiras enquanto nós transávamos.

Me desculpe por eu ter acreditado que você compreendia meu olhar. Me desculpe por eu ter dito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu disse.

Me desculpe pelas incontáveis horas em que ouvi você falar sobre sua tese. Me desculpe pelas incontáveis horas em que ouvi você discursar sobre suas convicções políticas. Me desculpe por você não ter me apoiado no momento mais importante da minha vida profissional.

Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você: são para mim. Afinal, porcos não reconhecem pérolas.