Uma dúvida sobre o feminismo em “Eu me possuo”

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“A posse de si mesma começa quando Karina conta para a avó sobre o estupro, não quando ela passa a ter vida sexual ativa”. Stella Florence

(Atenção: essa troca de e-mails contém spoilers)

De: LM
Enviada em: domingo, 28 de agosto de 2016 01:47
Para: Stella Florence
Assunto: Re: Eu me possuo

Olá, Stella.

Fico muito feliz com sua resposta! Então, o que quero fazer é uma troca de ideias mesmo, não quero impor nada, nem assumir um certo ou errado nessa conversa, tudo bem? Pois bem, achei seu livro muito bom, e a temática muito importante. É muito legal juntar a linguagem cotidiana a um tema tão forte e pesado. Achei bonita a carta que Karina faz a Gustavo. Entretanto, o livro me passou uma impressão que me incomodou um pouco: parece que Karina só se “cura” ao transar com Thiago, um homem que a despreza, além de ser bastante misógino (que só sabe objetificar as mulheres com quem ele sai). Não sei, isso não me parece empoderador, me parece até mais motivo para depender da validação masculina para se sentir bem. Superar um estupro tem a ver com aceitar-se como humana, como mulher, e não esperar que outro homem faça isso por você.

Gostaria de saber sua opinião sobre isso, se me equivoquei com minha análise…

Um grande abraço e muito sucesso!

LM

De: Stella Florence
Enviada em: quinta-feira, 1 de setembro de 2016 22:25
Para: LM
Assunto: RES: Eu me possuo

L……, querida, obrigada pela paciência! Como te disse, eu demoro, mas respondo.

Agradeço pela delicadeza da sua mensagem e pela oportunidade de tratar das questões interessantíssimas que você levantou sobre o “Eu me possuo”.

No começo do livro, Karina não consegue identificar um homem na rua, nem de longe nem de perto: aquela cena é uma metáfora para sua incapacidade de avaliar as pessoas. Quem não consegue identificá-las, quase sempre se entrega a idealizações (coisa que ela faz mais tarde com Thiago). Já no final do livro ela sabe exatamente quem é cada homem (e cada mulher) em sua vida e o que pode trocar com eles. Não há mais idealizações. Porém, até Karina chegar nesse ponto, há um longo arco dramático que passa pela autonomia profissional, por uma relação diferente com a família e também pelo envolvimento com vários homens, entre eles Thiago.

Quanto a ele validá-la como mulher, há um trecho do livro em que escrevi, de propósito (tudo no livro é de propósito), o seguinte: “Seria machismo isso? Sentir-se mulher apenas depois de uma sequencia de experiências sexuais indiscutíveis e orgásticas? Thiago era o endereço daquele sentimento, mas ela poderia se sentir assim num encontro com outra mulher, se isso a interessasse. Então não era machismo, Karina não se sentia libertada por um homem, mas por um amor, por uma pessoa, e o fato dessa pessoa vestir uma roupa carnal masculina era um detalhe. Um detalhe delicioso, porém, em essência, um detalhe. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez sua libertação tivesse acontecido antes, no seu aniversário de 23 anos, quando ela finalmente conseguiu chorar e contar tudo o que aconteceu para sua avó. Ali ela havia começado a tomar posse de si mesma”.

De fato, a posse de si mesma começa quando Karina conta para a avó sobre o estupro, não quando ela passa a ter vida sexual ativa. A relação dela com Evelyn também não é um acaso: é uma representação da forte solidariedade entre mulheres.

Outro ponto: Karina não busca por amor e sexo como uma validação masculina para se sentir bem. Ela sai com homens por um único motivo: porque ela deseja. Nada além disso. E se ela deseja, ela pode. Pode inclusive escolher o que é melhor para ela, coisa que vai aprendendo a fazer com o tempo.

A maneira dela superar o estupro foi, a partir de um luto de anos, decidir não abdicar do sexo, decidir vivê-lo como e com quem quisesse (com ela mesma essa vivência sempre existiu). Como ela é heterossexual, esse sexo se dá com homens. Além disso, eu quis traçar um mapa mais amplo da masculinidade, não queria resumi-la ao estuprador, por isso há caras legais com quem a troca é muito rica, como na vida real.

No final, Karina não precisa de muito dinheiro nem de uma aliança no dedo nem aceitar amizades sem estofo nem de amores sugadores de energia. Ela está bem, está segura de si e tem seu prazer fincado na realidade.

Beijo grande e fique à vontade para continuar esta conversa.

Stella