Vai demorar muito tempo para você me amar

Veja o vídeo no meu youtube.

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Ainda vai demorar tanto tempo para você me amar, tanto… Como uma semente vai demorar até que a árvore rasgue o céu com sua copa, como um livro vai demorar a ser composto, letra a letra, como a água captada pelas raízes vai demorar até ser abundante a ponto de sustentar chalanas, canoas e barcos, como tudo que é construído, como tudo que é bom, como tudo que é puro, você vai demorar muito tempo para você me amar.

A vida é lenta. Só a destruição é imediata, só o choque é urgente, só a tragédia é súbita, por isso, não se afaste, não destrua, se aproxime devagar.

O fato de você realmente só perceber o meu amor agora não significa que eu já não estava em curso nas suas veias desde que o primeiro desenho rupestre foi rabiscado na primeira caverna pela primeira mão humana. Eu estava ali. E você também. E ali eu já sabia que iria demorar muito tempo para você me amar.

Nós ainda temos tantos sonhos para materializar, tantas terras e asfaltos para seguir, tantos filmes e peças a dissecar, tantos temperos e alimentos para comer, tantas salivas e suores a misturar, tantas gargalhadas para chacoalhar os ossos, tantos livros para compreender juntos, tantos bons silêncios a compartilhar…

Eu posso ver no abismo das suas pupilas que você vai me amar, mesmo que não agora. Posso sentir no calor que seu corpo exala ao falar comigo que você vai me amar, mesmo que não já. Posso perceber na resistência e no desejo da sua substância em relaxar na minha, que você vai me amar, mesmo que não hoje.

Há quantos séculos eu te sorvo em silêncio? Deixe então que o tempo continue a fazer em você, o mesmo trabalho que já fez em mim.

 

 

Dois amantes, por Gabriel García Márquez

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Minha estante (e as ranhuras nas lombadas de seus livros) provam: Gabriel García Márquez é um dos meus autores prediletos. Em nome da divulgação de pérolas quase desconhecidas, aqui vai um tesouro publicado pela primeira vez em 06/07/1948, no jornal El Universal, na coluna “Punto y aparte” e reproduzida no livro “Textos Caribenhos, Obra jornalística, Volume I, 1948 a 1952”, páginas 99 e 100, Editora Record, 2006. Com a palavra, o mestre Gabo.

“E pensar que tudo isto estará alguma vez habitado pela morte. Que esta cálida madureza de sua pele, que sobe por meu tato até o abismo do meu desassossego, deva despedaçar-se um dia sobre o seu próprio silêncio desolado. Que esta ordem de coisas naturais, que fazem de você e de mim e da água e dos pássaros, nítidos volumes para a vindima dos sentidos, estará uma tarde afundada na névoa de distantes regiões. Que essa agitação de vozes interiores que sobe por seu sangue, que se aninha em seu ventre como um filho, quando lhe falo de coisas simples, elementares, como estas coisas formidáveis que estou falando, precise estar um dia transferido a outro corpo, quando os nossos conheçam o peso das pedras, e todavia continue sendo verdade o amor. Que essa dor de estar dentro de você, e distante de minha própria substância, há de encontrar alguma vez seu remédio definitivo.

Pensar que alguma vez conheceremos os portos do esquecimento, igual a antes, quando ainda não tinham vindo estes corpos a habitar nossa tristeza. Que os homens terão que se surpreender alguma vez de que todos os pássaros emudeçam de repente, sem saber que é você, e que sou eu, que voltamos a nos encontrar mais além de nossos ossos. Que uma tarde retornarão os bois do arado com as lâminas iluminadas por uma amorosa claridade, e todos acreditarão que há estrelas semeadas, sem saber que é você, e que sou eu, que estamos preparando as sementes.  Que um domingo como este soarão os sinos com bronze estremecido e as crianças perguntarão espantadas quem morreu no domingo, sem saber que é você, e que sou eu, que ainda continuamos morrendo em todas as perguntas.

Pensar que alguma vez as árvores perguntarão a suas raízes quando irão passar os vidros dos nossos olhos para que seja mais clara a luz de suas laranjas. Que a água dos rios nos levará , pó por pó, até o júbilo dos que tiveram sede e a mitigarão com o nosso barro. E cada uma das coisas que amamos continuará sendo bela sem necessidade de que nós a amemos.

E, sobretudo, pensar que este amor nosso tem que morrer, antes que estas coisas passageiras estejam habitadas pela morte.”

 

Náufrago (no amor e sexo)

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(Esta crônica faz parte do livro “Os Indecentes”)

Em 1955 o destróier colombiano Caldas emborcou no Caribe e oito tripulantes desapareceram no mar. Apenas um sobreviveu. Luís Alexandre Velasco ficou dez dias numa balsa à deriva, sem água e sem comida, até chegar, semimorto, a uma praia deserta ao norte da Colômbia.

Após ter sido, a contragosto, transformado em herói pela então ditadura militar do país, Velasco ofereceu sua história ao jornal El Espectador. Para escrever seu depoimento, um repórter iniciante foi designado: Gabriel García Márquez, que se tornaria mais tarde um dos maiores escritores do planeta. Por conta dessa matéria, publicada em capítulos, o jornal foi fechado, García Márquez teve de se exilar em Paris e Velasco perdeu o cargo na Marinha e a fama recente. E onde estão o amor e sexo afinal? Estão no último parágrafo: confie em mim.

Peço agora que você pare e entre um instante na pele do náufrago. É quase meio-dia quando o destróier emborca. Velasco se agarra a uma balsa. Três de seus amigos se debatem ao redor. Inutilmente ele tenta salvá-los: em minutos, todos desaparecem.

Sozinho, Velasco acredita que o resgate não demorará. Olhos fixos no horizonte, ele acompanha o pôr-do-sol, a noite escura e o nascer de um novo dia. Aparecem aviões: três ao todo. O último deles esteve tão perto, enquanto Velasco agitava sua camisa no ar, que ele teve certeza de que havia sido visto. Mas não havia. Às cinco da tarde chegam os primeiros tubarões. Brilho de luzes na superfície do mar: apenas um novo nascer do sol. Desespero, fome, sede, dificuldade para respirar, dor, sono, a pele fervendo em bolhas. Outro dia, um navio aparece no horizonte. Velasco rema furiosamente contra o vento, mas o navio se afasta sem vê-lo. No quinto dia, torturado pela fome, Velasco captura com as mãos uma gaivota. No entanto, mesmo há tantos dias sem comer, ele percebe que não é capaz de comer qualquer coisa. Um novo dia, ondas altíssimas. A balsa vira. Velasco nada em agonia, consegue alcançá-la  e se amarra ao estrado com o próprio cinto. A balsa emborca de novo e ele quase se afoga preso debaixo dela. Sorte os tubarões estarem longe naquele momento. No dia seguinte, Velasco come os cartões de papel molhados que tinha no bolso e sente algum conforto. Depois tenta comer nacos do seu cinto e sapatos, mas eles são duros demais. Um grande peixe pula dentro da balsa tentando escapar dos tubarões. Velasco prova apenas dois bocados da carne crua antes que um tubarão o ataque roubando o peixe e engolindo seu remo. Outro dia, alucinações: o acidente se repete minuto a minuto. A água muda de cor e Velasco supõe estar perto da terra. Porém, mais um dia se passa sem que apareça sombra de costa no horizonte. Semi-inconsciente, ele tem certeza de que vai morrer. Nesse instante, vê contornos de coqueiros, mas julga ser apenas delírio. No dia seguinte, porém, os coqueiros estão mais próximos. Velasco decide nadar os 2 quilômetros que o separam da costa. Num esforço sobre-humano, ele se arrasta, com o corpo em carne viva, e chega até uma praia deserta.

Eu pedi que você entrasse na pele de Velasco, mas isso foi um blefe. Você já esta na pele dele. À deriva, sem alimento, sem água, castigada pelo sol, iludida por miragens, rondada por tubarões, com possibilidades de alimento que se mostram intragáveis, com aviões que te sobrevoam, mas não te veem e, ainda assim, você continua sua busca por terra firme. Quando pensa que suas forças se esgotaram, alguma coisa tola, como gaivotas ou a mudança da cor da água, te traz esperança para continuar. A questão é: quanto mais você aguenta viver à deriva?

 

Acreditar não é crime.

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Obs.: crônica publicada no livro “Os Indecentes” de Stella Florence, Ed. Rocco.

O que acontece com uma mulher estuprada? Ela acha que, de alguma forma, foi responsável pela concretização das intenções bestiais daquele homem. Desse modo, na tentativa de encontrar razão para um ato irracional, ela se autoflagela. Por que eu passei por aquela rua? Por que entrei naquela sala? E se eu não estivesse com aquela blusa de renda? E se eu não tivesse entrado no carro dele? Numa total inversão de valores, a culpa passa a ser dela.

Ocorre o mesmo quando, por amor, acreditamos num relacionamento que termina sendo catastrófico. Rosa recebe mais uma intimação e se desespera: ela se separou em 1999 e ainda hoje tenta saldar as dívidas que o ex-marido deixou em seu nome. “Quando eu titubeava em assinar alguma coisa, ele dizia que era meu marido e que eu tinha de confiar nele. Depois da separação, minha mãe perdeu a casa, meu irmão vendeu seu carro, tudo para me ajudar. Como eu pude ser tão burra? Eu tinha de ter desconfiado!”. Não, Rosa, você não tinha. Você até poderia, mas não tinha a obrigação de desconfiar. Mais uma vez, a vítima é responsabilizada. Seu crime? Ter acreditado no homem que se dizia seu marido.

De acordo com esse jeito torto de pensar, um homem pode, por exemplo, ter entrado em sites de relacionamento romântico enquanto estava junto (e bem) com você, pode ter mantido seduções clandestinas debaixo do seu nariz, pode ter deixado em suas costas dívidas que não te pertencem, e ainda assim quem anda curvada pela rua é você por ter acreditado nele? A culpa agora é sua?

Não, amiga leitora: levante a cabeça já! Você não tem nada, rigorosamente nada, do que se envergonhar. Verdade que, além de lidar com cobranças internas, ainda há os outros que te acusam de ter sido ingênua ou burra. E desde quando ingenuidade é pecado? Desde quando até mesmo a burrice é crime? Quem abusou da sua ingenuidade (ou da sua burrice, como insistem alguns) é que realmente deve se envergonhar, não você. As reflexões amargas sobre o que mudar cabem apenas a você – e certamente elas serão feitas. Aos outros caberia o acolhimento, não a acusação.

Portanto, não se envergonhe por ter se entregado. Não se envergonhe por ter acreditado. Não se envergonhe jamais por ter apostado tudo num amor, mesmo que ele só tenha existido dentro de você.

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Educação para a morte

Após enviar este e-mail a um amigo, recebi dele a seguinte resposta: “Compreendo que sua intenção é boa, Stella. Fiquemos por aqui quanto a esse assunto”. Creio que, embora se trate de um e-mail pessoal, não devo sonegá-lo de você, leitora. Aqui está seu conteúdo, na íntegra. Que ele te seja útil, no momento adequado.

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*****, querido, quanto à conversa que tivemos ontem, me permita dizer algumas palavras sobre a expressão que usei (“lamento que você não acredite na vida após a morte”). Tenho (mais do que o desejo) a obrigação de me explicar. No final, você entenderá minhas razões.

Eu sei que você lerá este e-mail como uma peça de ficção, mas não me importo com isso: apenas peço que leia até o fim. Considerando que em todos esses anos da nossa amizade eu nunca trouxe esse assunto à baila (e ontem ele surgiu naturalmente), creio ser um pedido razoável.

Eu trabalho como médium nas sessões de desobsessão do meu centro espírita há exatos 25 anos, duas vezes por semana (digo “meu centro” apenas por carinho, o correto seria “o centro que eu frequento”).

Muitos dos espíritos que usam as cordas vocais dos médiuns para se comunicar não acreditam na vida após a morte e estão há muito tempo perambulando entre nós, encarnados, julgando-se também vivos (embora estranhem o fato de ninguém os responder e tenham perdido há muito a noção do tempo).

Não é para menos: eles, que em vida não acreditavam em nada ou só acreditavam da boca pra fora, após uma doença, um acidente ou algo que tenha provocado a morte do seu corpo, continuam existindo, pensando, experimentando sensações “físicas” (fruto de ilusão) como fome, frio, sede, cansaço, dores (crendo-se ainda vivos, eles se prendem mentalmente às sensações da matéria e as recriam em seu corpo somático, chamado “perispírito”). Como diz muito bem o filme O Sexto Sentido: “Eles só veem o que querem ver”.

Espíritos amigos, bondosos ou familiares desencarnados, os conduzem a uma sessão espírita sem que eles percebam. Supondo comparecer a uma reunião qualquer cujo conteúdo não conseguem entender, eles começam a falar com o dirigente da sessão (alguém apto à conversa fraterna), crendo-se perfeitamente vivos.

Quando veem que falam através de um corpo que não é o seu, eles nos acusam de bruxaria ou prestidigitação, de termos dado alguma droga a eles, se julgam loucos, mas, devagar, começam a considerar a possibilidade daquelas informações sobre seu novo estado serem verdadeiras.

É nesse ponto que vemos, nas sessões, a cena (que seria risível se o nosso respeito não fosse total) de um espírito, através do médium, dizer: “Mas que besteira é essa de que eu morri?! Morreu, acabou! E eu estou vivo!”.  Como nós, eles veem o que querem ver.

Seus olhos só se abrem para a realidade de que apenas seu corpo de matéria densa morreu enquanto seu espírito continua vivo quando, ainda envolvidos pelos fluidos do médium que favorecem esse processo, eles conseguem ver algum amigo ou parente que desencarnou antes deles e que ali está para acolhê-los e apresentá-los à nova vida.

A surpresa é sempre grande e a vergonha também: nada mais natural – é muito difícil mudar de ideia sobre algo que guiou nossos passos por tantos anos. Provavelmente eles têm sido céticos por muitas vidas e sempre que mergulhados de novo na carne voltam ao apego material e à ideia arraigada de que nada existe além dos seus sentidos. A natureza não dá saltos. É compreensível que assim seja até que o espírito assimile profundamente o fato de que todos somos imortais e destinados à perfeição, na velocidade dos nossos esforços.

O que vale na vida após a morte não é a pessoa professar a religião A, B ou C (ou nenhuma), mas quanto bem ela fez, quanta caridade praticou, quanto se esforçou para se melhorar.

Nem todos os materialistas vivem esse processo após a morte: aqueles que foram pessoas caridosas têm muito mais mérito que os religiosos de carteirinha, pois praticaram a caridade sem esperar qualquer recompensa posterior. Pela vibração mais elevada que emitem, mais cedo conseguem ser levados às sessões espíritas (ou são esclarecidos por espíritos bondosos fora delas sem qualquer problema de incompatibilidade vibracional). Na verdade, quando um espírito se comunica numa sessão, muitos outros na mesma situação assistem à conversa e dela se beneficiam, sendo igualmente esclarecidos.

A ausência de uma educação para a morte, meu amigo, gera muita dor – e eu sou uma das incontáveis testemunhas dessa dor.

Talvez agora você suponha que o objetivo desse e-mail é te convencer, mas não é. Sei que você não irá mudar por enquanto. Como sei também que, um dia, você irá morrer e se lembrar dessas palavras onde estiver. Acredito que elas serão muito úteis no momento oportuno. E elas foram ditas porque eu me importo com você. Simples assim.

Sua amiga,

Stella

Depressão e as variações da Ilha de Caras

Veja o vídeo no meu Youtube.

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Quantas pessoas você conhece que estão ou estiveram com depressão?  Veja que eu nem perguntei se você conhece alguém, eu já te pedi um número: quantas pessoas? Você provavelmente perdeu a conta. Eu já perdi.

Claro que sempre existiram estados depressivos na história da humanidade, mas é inegável, até mesmo para uma leiga completa como eu, que nós atravessamos uma epidemia mundial e inédita de depressão. E é com a liberdade de leiga, de escritora de literatura ficcional, nada mais, que eu ouso fazer algumas reflexões, naturalmente desqualificadas de qualquer cientificismo.

Ser feliz hoje se tornou uma obrigação social, uma urgência tácita te constrange a manter os dentes sempre à mostra. A virtude do sacrifício, por exemplo, passou a ser vista como absurda. E eu me pergunto: você pode ser um boa mãe ou um bom pai se não souber se sacrificar de bom grado? Sem abnegação você não dá conta sequer de uma noite de bronquite de uma criança.  E mais, sem sacrificar-se você nunca sentirá a doçura do abraço sadio dessa criança após uma noite em claro cuidando dela. A paz que se constrói com a abnegação pode ser chamada de uma felicidade segura, no entanto a que todos buscam hoje é a mais infantil e fugaz que existe.  É a felicidade do porre, do tiro, do auge, da adrenalina, das malas de dinheiro, da fumaça, do gozo branco, do gozo marrom, do gozo em pó, em cliques, em sorrisos falsos, como se criássemos em nossos perfis sociais infinitas variações da Ilha de Caras: fotos que enganam todas as pessoas, menos as que estavam lá.

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A depressão, a meu ver, é uma reação (psíquica, espiritual, física) a algo que se tornou rotina: a fuga da realidade e o fingimento da felicidade. Ninguém acorda das próprias ilusões, das mentiras que conta aos outros, que conta a si mesmo, muitas vezes por décadas seguidas, sem susto, sem dor.

Deprimir-se, portanto, além de uma doença cujos efeitos precisam ser medicados, talvez seja também um amadurecimento intransferível, um contato com a realidade tão insistentemente evitado. A realidade é como uma bola inflável que mantemos no fundo de uma piscina. Ao menor deslize, à menor invigilância, ao menor cansaço dos nossos músculos, a bola vai escapar e vir à tona.

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Talvez essa epidemia da depressão seja sinal de que, a duras penas, os homens estão sendo forçados a ver a brutalidade das suas instituições, o egoísmo das suas fronteiras, a puerilidade das suas conquistas. Talvez cada pessoa deprimida esteja finalmente vendo o ridículo dos seus preconceitos, a solidão do seu orgulho, o vazio das suas más escolhas. Todos nós sabemos quais são os nossos pontos fracos e o tanto de energia que gastamos para fugir deles, para ocultá-los do mundo e de nós próprios.

É possível, é bastante possível, que a depressão nos forçando, como indivíduos e como civilização, a um encontro doloroso, porém libertador, com a verdade, carregue dentro de si mesma o início da nossa cura.

 

Estupro e abuso infantil: tenho um pedido a fazer

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Obs.: Veja no vídeo no meu canal do Youtube.

Quero te pedir uma coisa. É delicado, eu sei, mas eu preciso fazer isso, assim, olhando nos seus olhos. Mas antes vou te contar uma das mais emocionantes situações pelas quais passei como escritora.

Após o lançamento do romance “Eu me possuo”, que trata da superação de um estupro, eu recebi ainda mais e-mails do que de costume de leitoras confidenciando as violências pelas quais passaram. Triste dizer que isso é uma rotina para mim, eu sei, mas é a verdade. Dentre esses relatos, quero contar um em particular.

Uma moça, casada há alguns anos, me relatou os abusos sexuais que sofreu de um familiar por toda a infância. Inspirada pela carta que minha personagem, Karina, escreve ao seu estuprador, ela decidiu escrever uma carta também, não ao seu abusador, que já estava morto, mas ao seu marido, contando tudo pelo qual ela havia passado, tudo que ele não sabia e que acabava por desaguar na vida íntima de ambos. A carta foi escrita e entregue, no entanto seu marido permaneceu dias e dias sem falar com ela, sem sequer mencionar o conteúdo bombástico daquelas revelações. Por fim, quando minha leitora começava a cristalizar em si uma nova mágoa, o marido a procurou para conversar a respeito da carta. Ele então disse que ficou muito abalado e em silêncio todo aquele tempo não só pelo drama que ela atravessara, mas porque ele também havia sido abusado na infância.

Acredito que ambos iriam se conectar nesse nível mais profundo, sem segredos fundamentais, em algum momento de suas vidas. Talvez o gatilho dessa revelação dupla fosse um filme, a palavra de um amigo, uma palestra, uma canção, mas eu me sinto tão honrada de que tenha sido um livro meu!

É por isso que eu preciso te fazer esse pedido. Se você foi abusada na infância, se foi estuprada na vida adulta, se sofreu violência sexual e se essa violência deixou traumas, considere seriamente contar para o seu parceiro (ou parceira) o que aconteceu. Conte. Sonegar essa informação é manter um muro invisível entre vocês. Sonegar essa informação é causar a falsa ideia de que o problema é ele. Sonegar essa informação é deixá-lo sem elementos para te ajudar, para te acolher. Isso sem contar com a possibilidade concreta de que tal violência também tenha acontecido com ele e ele sinta a mesma dificuldade que você (ou ainda maior) para revelar isso.

Seja lá o que tenha acontecido, independente das circunstâncias, você não tem nada do que se envergonhar. Quem tem de se envergonhar é quem comete a violência, não quem a sofre.

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Se, por exemplo, uma mulher for até a casa de um homem que ela deseja ou se ela for a um motel com ele, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador. Desejar transar com uma pessoa não é o mesmo que desejar ser estuprada por ela. Outro exemplo mais radical: se uma mulher for sem calcinha a um baile funk, beber, se drogar e decidir fazer parte de uma orgia no final da noite, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador.  Não é o comportamento da vítima que gera o crime, mas sim a existência de um criminoso.

Há alguns anos eu entrevistei uma delegada de polícia. Ela disse que essa ideia de que roupas provocantes ou comportamento extrovertido são causas de estupro são estatisticamente falsas. Estupradores fogem de mulheres espalhafatosas porque eles acreditam que elas os podem subjugar e para se sentirem superiores eles escolhem justamente as recatadas que, na sua fantasia, não lhes podem oferecer resistência.

Há manuais aconselhando as mulheres a evitarem um estupro: não saiam sozinhas, não bebam, não usem roupas provocantes, não confiem em estranhos, como se estivéssemos submetidas a um eterno toque de recolher (e como se a maioria dos violadores não fosse próxima e conhecida). No entanto, a verdade é que só há uma regra para evitar esse tipo de violência: estupradores, não estuprem!

Por fim, repetirei a frase que uso em todas as minhas palestras e que, infelizmente, é a mais crua verdade e um símbolo de quão longe ainda estamos de exterminar esse câncer: se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo.

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O planeta dos esquecidos

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Hoje me dei conta de que vivo no planeta dos esquecidos. Estou olhando através da janela do meu apartamento e, ao mesmo tempo, num limpíssimo espelho que mostra exatamente quem eu sou: eu sou nada, eu sou ninguém.

Não consigo compreender como tantas pessoas dividem a vida com você por um tempo e depois desaparecem completamente como se você nunca tivesse existido.  Como elas conseguem se descartar das lembranças desse modo?  Como conseguem encaixotar-se em novos compartimentos sem manter limpos os aposentos que abandonaram? O passado não precisa de clausura e mofo para continuar a ser passado. Um homem (ou mulher) que não faz parte mais do seu cotidiano e está inacessível aos afetos românticos que entre vocês já morreram pode muito bem continuar a ser uma pessoa querida.

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Por que você não pode manter um contato amistoso com seu ex, considerando que o rompimento não se deu por graves estragos?  Por que não pode trocar algumas palavras gentis por ano, que seja no aniversário ou no Natal? Por que não pode tirar uma dúvida sobre a área profissional dele? Por que não pode compartilhar a reflexão sobre uma peça ou um filme? Por que nos encarceram num sarcófago quando a relação termina? E eu não me refiro, que fique claro, a recuperar o amor de casal, eu estou falando de gentileza, de consideração, de amizade.

Quando ele esquece quem fez parte de sua vida, ele cai na vala comum. Eis aí, senhoras e senhores, o exato instante em que alguém especial se torna apenas mais um, se torna igual aos outros.

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Então eu sou assim, uma estranha no ninho, porque eu não me esqueço. Minha alma segue cheia de talhos, como um mapa, repleto de rios, cordilheiras, cavernas, vales sulcados por arados cruéis, mas sem recusar uma palavra amiga a quem conviveu comigo (a não ser a criaturas perigosas e perversas das quais quero distância).

É isso. Não importa quão significativas tenham sido suas relações, não importa o quanto você tenha se doado, como mulher e parceira, não importa quão rica tenha sido a troca intelectual entre vocês, não importa a amizade que você supôs existir, você vai desaparecer completamente porque vivemos num absurdo e monstruoso planeta dos esquecidos.  Mas eu insisto: quem apaga o seu passado, destrói as pontes do futuro.

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Competição: quando todos nós perdemos

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Masterchef. The Voice. Big Brother. Dance Moms. The X Factor. Games de programas de auditório. Trânsito agressivo. Inveja entre colegas de trabalho. Irmãos ciumentos. Essa lista poderia continuar indefinidamente. Por quê? Porque estamos todos contaminados pelo vírus letal da competição.

O modo mais fácil de você desperdiçar sua vida, de se manter em coma, de ser uma morta-viva, um zumbi acéfalo, uma sonâmbula inconsciente dos machucados que gera em si mesma e nos outros, é se manter competindo o tempo todo.

Há pessoas que dizem com o peito estufado “eu não levo desaforo pra casa” ou então “eu sou muito competitiva”, como se esses comportamentos fossem qualidades! Toda vez que ouço alguém dizer isso, tenho vontade de mandar uma coroa de flores em memória àquela vida que já acabou faz tempo. Porque se um perde e o outro ganha, todos perdem.

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Aqui vai uma situação cotidiana para que você repense suas reações: experimente na próxima reunião profissional ou de família se calar assim que alguém te interromper e deixar que essa pessoa fale até esgotar o assunto. Quando ela terminar, você continua do exato ponto em que parou (a não ser que intervenção dela tenha acrescentado algo digno de nota, coisa que provavelmente não acontecerá: o ansioso não tem conteúdo). Não é competindo que você se destaca: é se negando a competir. Mas e se for um debate? Você será mais respeitada e ouvida falando 2 minutos serenamente do que meia hora esganiçando.

Enquanto você compete com tudo e com todos, você não vive, você vegeta. Viver não é competir, é o oposto: é cooperar. Vida pulsante, vibrante, quente, luminosa é cooperação. Qualquer atitude ou pensamento que seja colaborativo te expande, te acorda, te fortalece tanto quanto ideias e ações competitivas te amesquinham, enfraquecem, selam o seu corpo numa mortalha.

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Competir é algo tão danoso quanto comum – e acontece até mesmo nas ocasiões mais inesperadas. Outro dia soube que uma conhecida havia acabado de passar por uma situação dolorosa e a procurei: “Eu também já passei por isso, se você quiser desabafar, conta comigo”.  A resposta que essa moça me deu fez com que eu fugisse dela horrorizada. Erguendo a voz agressivamente (coisa que eu abomino), ela me disse: “Mas eu aposto que o seu caso não foi tão ruim quanto o meu!”. Oi? Ela estava competindo comigo para ver quem se ferrou mais? Não, obrigada. Minha oferta expirou ali.

Portanto, eu te peço algo simples e difícil: primeiro perceba o quanto você funciona no modo competição e depois desligue essa chave. Substitua, em todos os seus atos, a competição pela colaboração. Mesmo que só você faça isso, siga sem cessar de alma leve – porque competir é desperdiçar a vida numa anestesia cheia de pesadelos – além de ser burrice.

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Como distinguir um canalha fanfarrão de um homem que vale a pena?

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Você já ouviu um homem que te interessa falar que tem medo de se envolver ou que precisa ficar sozinho? Essas duas situações não são lendas urbanas: elas acontecem. Podem ser apenas desculpas esfarrapadas? Podem, mas ao lado dos canalhas fanfarrões, existem, sim, homens que estão falando a verdade. Aliás, entre o canalha e o homem que vale a pena existe uma plêiade de tipos que muitas vezes até se cruzam num mesmo homem: o confuso, o imaturo, o leviano, o inconsequente. Então como distinguir um do outro? Como saber quando esperar ou seguir em frente?

Há duas respostas para essa dúvida, ambas eficientes e confiáveis. A primeira é sua intuição. Ela não erra: nem pro bem nem pro mal. Mas você precisa enfiar a cara no gelo ou no fogo com toda força e ter coragem de escutá-la porque nem sempre ela vai dizer o que você quer ouvir.  Você vai querer esperança e ela te trará morte. Você vai querer morte de uma vez, chega de sofrer, e ela te trará esperança.

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Pense em alguns exemplos que passaram pela sua vida. Percorra-os novamente agora, ponha-os em fila, parágrafo a parágrafo . Você sempre soube a resposta.

Enquanto você parece absorta na distante copa das árvores, você flagra um carinho morno na sua mão e um olhar significativo. Ele te trata bem, mas não é por amor, é pena. Ele não sabe como te dizer para ir embora. Sua intuição sente que ali não há nada além de um punhado chocho de piedade.

Houve carinho real e profundo no primeiro abraço que vocês, se esquecendo completamente de que estavam numa fila de cafeteria, trocaram longamente. Embora ele tenha tentando não ser colhido pela sua ternura, foi inevitável constatar que aconteceu um encontro raro. Sua intuição diz: haverá dor, mas espere.

Ele te pega e te larga, numa semana se mostra decidido a construir algo com você e cheio de doçura, na outra nem uma palavra de acalanto, nem um pólen de afeto. Loucuras de estimação são pródigas em não nos amar. Enquanto nos mantém sob seu jugo, seus corações estão blindados: não há qualquer fresta ali. Sua intuição sabe que é inútil bater numa porta fechada.

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Numa manhã, as lágrimas dele são como um luar líquido prateando sua cama. Você se emociona ao compreender quão corajoso ele precisou ser para se desnudar daquele modo. Sua intuição sussurra: abrace-o e espere.

Ele não te manda mais músicas nem flores nem imagens solares nem bom dia nem boa noite:  a fome e a sede tomaram conta de tudo. Não vai ser dessa vez que você finalmente vai ser amada e viver um pouco: sua intuição decreta que você voltará aos livros e observará a vida apenas através das paredes da sua casa de vidro.

Seus dedos percorrem os cabelos dele sem pressa. Ele começa a dormir e você se abaixa para sentir o cheiro do seu sono. Cada pedacinho dele possui um aroma diferente. Jean-Baptiste Grenouille, do livro “O perfume”, faria uma essência perfeita com esse homem. Sua intuição inspira e diz: espere mais um pouco.

No começo desta crônica eu disse que há duas maneiras para saber quem é o homem que está se relacionando com você. A primeira delas, a que me referi durante todo o texto, é a intuição. Mas e se você estiver com dificuldade de ouvi-la? Qual caminho também eficiente e confiável existe para te guiar nessa selva romântica? É o tempo. Se esse homem disse a verdade, se ele vale a pena, ele voltará – para ficar.

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