O segredo (genial) das faxineiras.

Não tenho empregada no dia-a-dia. Mas não alcancei a beatitude da autonomia doméstica: uma faxineira me salva a vida uma vez por semana. Não qualquer faxineira, mas Luzia (a quem eu chamo de Lubeca), que faz parte da nossa família desde que eu me entendo por gente. Ela cuidou da minha mãe até seus últimos dias e é, para mim, uma figura materna das mais queridas. (Para quem ainda acha que direitos trabalhistas e afetividade não se misturam, vale dizer que Luzia foi registrada com direito a férias, 13º salário e demais benefícios, já quando veio morar conosco, na década de 70.).

É provável que a sua empregada pertença a esse grupo especialíssimo, como é provável também que ela não passe de uma quase-estranha que limpa sua geladeira.  Existe, porém, algo que todas as faxineiras têm em comum: nenhuma delas, ao ir embora, deixa os objetos da casa no mesmo lugar em que os encontrou. Pode ser mineira, amazonense ou baiana, pode ser senhora ou adolescente, pode ser casada ou ter três namorados, pode adorar criança ou preferir engomar roupa, todas elas fazem a mesmíssima coisa: depois da limpeza, mudam tudo de lugar.

O que move uma empregada a fazer isso? Será que é um desejo incontrolável de ser a dona da casa? Ou será apenas teimosia? Pode ser ainda a constatação muda do nosso mau gosto. Talvez Luzia pense: “A Stella não entende nada de decoração: não vê que a ovelha virada para a porta fica muito melhor do que olhando para a janela?”. Será?

Uma coisa é certa: quando eu ponho os pés em casa, após a faxina da Luzia, gasto uns quinze minutos para colocar os meus porta-retratos, abajures, enfeites, livros, tudo de volta ao seu lugar original. Impressionante, até meus travesseiros – quer coisa mais íntima e pessoal do que travesseiros? – minha faxineira arruma da maneira que ela acha melhor (uma maneira que definitivamente não é a minha).

Pois, alguns meses atrás, eu não aguentei mais a dúvida. Ao chegar em casa e, mais uma vez, ter de acertar a posição da minha luminária feita com um farol de fusca (cuja posição correta, para mim, é com a luz virada para frente e, para a Luzia, é com a luz virada para o teto), passei a mão no telefone e liguei para a casa da minha digníssima ajudante.

–  Lubeca, me responde uma coisa que está me encafifando. Por que você nunca deixa as coisas aqui em casa na mesma posição em que você encontra? Por exemplo, meu porta-retrato verde fica ao lado da TV, mas você toda semana o deixa ao lado do som. Minha agenda, cujo lugar é em frente ao computador, você sempre enfia na gaveta da escrivaninha. Até meu roupão de banho, você tira do gancho atrás da porta e pendura no registro. Por que, em nome de Deus, você faz isso?

Luzia não titubeou.

– Ué, para você saber que eu fiz a faxina. Se eu deixar tudo no mesmo lugar como é que você vai perceber que eu limpei a casa?

Fiquei pasma. Heureca! Luzia é um gênio! E não é que faz todo sentido? Mistério, enfim, solucionado.

lu

Val

(Eu e Valderez Cândida Santana, filha da Luzia: crescemos juntas e seguimos).

Quanto tempo vocês ficaram juntos?

É a primeira vez que você vai ao salão de beleza depois de ele ter te abandonado. Sua autoestima não anda lá essas coisas, é claro, e cuidar da aparência certamente fará você se sentir um pouco melhor.

Nos primeiros dez minutos, você pensa numa lista das coisas que detesta em salões. Primeiro, o barulho: sempre tem uma televisão ligada ou um rádio, competindo com secadores e cacarejos humanoides. O cheiro também te incomoda: cremes, esmaltes, ceras quentes, chapinhas, fumaças de todos os tipos. Porém, o que mais te aborrece é a obrigatoriedade de interagir: sorria, cumprimente, converse. Não, você não quer conversar. Não quer ouvir nada sobre paqueras, sapatos, doenças, artistas, fofocas. Você quer apenas chorar.

– Quanto tempo vocês ficaram juntos?

Seus olhos estão obviamente inchados e a partir deles supuseram um resfriado. Você negou que estivesse gripada e meio sem querer a cabeleireira já sabia – e com ela o salão inteiro – que você havia levado um retumbante pontapé nos fundilhos.

Foi então que uma moça com aquele chapéu de papa com o qual se faz hidratação, uma moça que nem te conhece, pergunta quanto tempo vocês haviam ficado juntos. Por que ela não disse simplesmente “sinto muito” e ficou quieta? Ou apenas manteve sua boca calada, o que já seria uma caridade? Seu rosto e sua postura corporal gritavam que você não queria falar sobre o assunto. Você se mantém em silêncio, mas a papisa repete a pergunta:

– Ei, quanto tempo vocês ficaram juntos?

Você respira fundo e responde:

– Sabe, eu sou contra essa pergunta.

– Contra? Como assim?

A papisa ajeitou a orelha esquerda dentro do chapéu, olhando para você à espera de uma explicação.

Um secador foi desligado, depois outro. Manicures, cabeleireiros e suas clientes sentiram a tensão no ar e esticaram os pescoços. Você aumentou o tom de voz, mantendo, porém, uma estranha suavidade.

– A dor que a gente sente quando é abandonada não tem o tamanho do tempo que durou o relacionamento. A dor tem o tamanho da esperança acumulada numa vida inteira de procura. Se você já sofreu bastante, já se decepcionou muito, a esperança de que finalmente algo bom, algo verdadeiro, algo definitivo acontecesse foi crescendo. E no meio dessa ansiedade apareceu um homem especial. E se esse homem tão esperado for embora, vai fazer diferença o tempo que ele ficou? Vai doer menos? E se ele ficou o tempo de um beijo, mas um beijo que tenha soterrado todos os outros? E se ele ficou só uma noite, mas uma noite que tenha sepultado todas as outras? Isso não seria o suficiente para ele se tornar o homem mais importante de todos? O tempo rígido do relógio não conta no amor.  É por isso que eu acredito que a dor de um rompimento tem o tamanho da nossa esperança, da nossa frustração, da nossa busca. Quanto tempo durou não faz diferença, se, dentro da gente, o amor ainda dura.

Silêncio pós-bombardeio nuclear no salão de beleza. E tudo que você quer, ainda, é apenas chorar.

Beleza: mudanças de fora pra dentro.

A primeira vez que ouvi falar em Botox foi quando uma amiga se separou e de tanto chorar seu rosto vestiu luto: a testa se tornou um labirinto de contrações e os olhos ganharam sulcos que nunca estiveram lá. Era como se uma máscara de dor tivesse sido costurada em seu rosto. Algumas semanas depois, porém, a reencontrei transformada: seu semblante havia voltado ao normal com um toque de serenidade que há muito eu não via. O que acontecera? Seu marido havia voltado arrependido? Largado a amante e rastejado pedindo o asilo do seu amor? Será que ele havia retirado com beijos e carinhos as palavras duras que convulsionaram o rosto da minha amiga? Não, nada disso. Ela havia se submetido a um troço chamado Botox: injeções com toxina botulínica, que paralisam temporariamente certos movimentos, como carrancas, pés de galinha e testas retorcidas de tanto chorar. Claro que o Botox não consertou o rombo em sua alma, mas fez com que ela, ao ver seu rosto mais tranquilo no espelho, sentisse um bem-estar que deu início a outras e mais significativas transformações, como fazer terapia e, mais tarde, mudar de emprego.

Quem supõe que ir à dermatologista ou ao salão de beleza é algo fútil não entende nada de mulher – e menos ainda de sensibilidade. O que as médicas (e médicos) fazem por nós em seus consultórios, o que as cabeleireiras fazem por nós em suas cadeiras mágicas, é algo que influi profundamente no nosso ânimo e muitas vezes é o primeiro passo para sair de uma depressão, para reconstruir um casamento, para voltar ao mercado de trabalho, para iniciar uma dieta, para enfrentar uma cirurgia e mais um sem número de desafios que a vida nos apresenta.

Lembre-se de uma mulher que tenha atravessado um luto rigoroso: você deve conhecer alguma. O que você via no auge da dor? Cinco dedos de raízes à mostra em seu cabelo antes bem cuidado. Quando consegue finalmente se erguer, a primeira coisa que ela faz por si mesma é ir ao salão pintar os cabelos. Ou, caso ela tenha o lindo estilo de Judie Dench ou Helen Mirren, o primeiro sinal de seu retorno à vida é acertar o corte. Repito: cuidar da aparência não é futilidade.

Certamente há quem pare nesse primeiro passo (cuidar da aparência) e dele não saia acabando por se tornar uma caricatura oca de si mesma. Mas eu pergunto: excessos e radicalismos de algumas mulheres anulam os benefícios que outras tantas colhem? Devemos ter vergonha ao pagar em três vezes no cartão um laser clareador de manchas? Devemos nos constranger por retocar a raiz dos cabelos de vinte em vinte dias? Quem nos critica por isso, além de não pagar nossas contas, não sabe que muitas vezes a mudança começa de fora pra dentro.

Eu não represento nenhuma marca, produto, indústria, segmento, sindicato. Eu apenas observo, converso, sinto, e escrevo: esse é o meu trabalho. E o que eu tenho observado, ouvido e sentido é que viver exige coragem – e que ela pode, sim, começar num prosaico salão de beleza ou no consultório da nossa dermatologista.

Whiplash: o psicopata nosso de cada dia.

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Você já teve o desprazer de lidar com um psicopata (ou vários), estou certa. Então vai entender meu grito contra duas ideias do filme “Whiplash”.

Não me entenda mal: o filme é incrível, te mantém preso à cadeira do primeiro ao último minuto, possui um roteiro redondo, atuações impecáveis, mas é preciso notar que os protagonistas defendem, cada qual, filosofias de vida mais que equivocadas: danosas.

Temos Terence Fletcher, um professor de música psicopata. Sem meias-tintas: psicopata, sádico, manipulador, prepotente, desonesto. Sua capacidade técnica e seu carisma são inquestionáveis. Ainda assim, nada muda o fato dele ser um psicopata, sádico, manipulador, prepotente, desonesto.

Temos Andrew Neiman, um aluno de bateria apaixonado por seu instrumento, mais que dedicado: obsessivo.

Numa escola de alto nível eles colidem. Fletcher, o professor, faz o que sabe fazer melhor, ser um psicopata, e Neiman se esforça para corresponder às exigências estapafúrdias de seu mestre tirânico.

Os psicopatas que matam corpos são poucos. Os que ferem, dominam, achacam, pisoteiam, manipulam, roubam, humilham, agridem, estupram, retalham nossas almas estão à solta e sob camuflagens as mais variadas: às vezes são nossos professores, às vezes pais, às vezes amigos, às vezes namorados.

Tal qual o professor de “Whiplash”, esses psicopatas da vida real se apropriam de discursos plausíveis nos quais inserem algumas distorções sutis (que modificam completamente os resultados) e assim conseguem impor suas ideias tortas e se justificar. Não se engane: são monstros. Muito inteligentes e persuasivos, nem por isso menos monstruosos.

Fletcher diz que não se arrepende por torturar seus alunos, pois apenas sob o fogo dessa tortura é possível provocar a dedicação necessária a fim de torná-los músicos excepcionais. Quem não suporta o processo, continua Fletcher, apenas prova que não possui a firmeza do gênio.  É preciso disciplina nos estudos, o conceito em tese é correto, Fletcher, porém, faz as tais distorções que justificam seu comportamento doente. Submetidas ao seu sadismo há pessoas que se suicidam, que seguem de almas mancas para toda a vida, que abdicam de um sonho por serem sensíveis demais. Monstros sempre vencem – se a gente se deixar enganar.

Depois de suportar o insuportável, Neiman dá a volta por cima, para ser, em questão de minutos, dominado pelo professor que, além de retomar o controle, termina o filme trocando com seu aluno um olhar de suposta cumplicidade que justificaria sua didática primata. Não, não! Neiman não se tornou um virtuose por causa da tortura imposta pelo professor: ele se tornaria um gênio da bateria com ou sem Fletcher, mas, infelizmente, o filme dá a entender o contrário.

Por fim, mas não menos importante: num jantar, Neiman diz que preferiria morrer jovem, sem grana e drogado como Charlie Parker a viver 90 anos tranquila e anonimamente. Ora, Charlie Parker, Jimi Hendrix, Janes Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse não se tornaram lendas por terem se enfiado até o pescoço nos vícios. Estamos falando e continuaremos a falar deles apenas por uma coisa: seu imenso talento musical. Eles eram talentosos apesar dos vícios, não por causa deles. Esse endeusamento dos excessos, da vida louca, do viver 10 anos a 1000, é um equívoco absoluto – muito usado, aliás, pela propaganda para nos vender produtos desnecessários.

Portanto, se você não assistiu Whiplash, por favor, assista. Mas não se esqueça de que os psicopatas e suas ideias horrendas, disformes, anormais, estão camuflados em muitos lugares, inclusive em nossas vidas e nos bons filmes.

 

Amor substituto

Abençoado seja o amor substituto.

Abençoado seja o homem que me acalenta enquanto meu coração sangra por outro.

Abençoada seja sua saliva cicatrizante.

Abençoado seja seu abraço que cura.

Abençoado seja por cada segundo de trânsito medonho que atravessa para me ver.

Abençoado seja por não se importar nem um pouco com isso.

Abençoada seja sua loucura de se entregar a quem não se entrega a ele.

Abençoada seja sua língua exata.

Abençoada seja sua discrição em não comentar meus olhares perdidos.

Abençoados sejam seus óculos estranhos.

Abençoados sejam seus braços que me sustentam onde outros me deixaram cair.

Abençoados sejam seus recursos imensos de afeto.

Abençoada seja sua boca sem promessas vazias.

Abençoadas sejam suas atitudes fartas de realidade.

Abençoada seja sua fome feliz.

Abençoado seja seu sorriso acachapante.

Abençoados sejam os encontros propostos e imediatamente vividos.

Abençoada seja sua chegada, amor substituto.

E que, um dia, abençoada seja sua partida.

Aplicativos de paquera: quem não escolher!

Parece óbvio, mas é preciso iluminar o óbvio: esta crônica, portanto, trata, sem poesia e direto na carne, de algumas obviedades sobre os aplicativos e sites de paquera.  Mais especificamente, como não usar, como não fazer, como não se mostrar e, sobretudo, quem não escolher nesses ambientes virtuais. Vamos lá?

  • A pessoa que diz estar ali para fazer amigos é quase sempre comprometida e usa em seu texto esse eufemismo mequetrefe (há quem afirme abertamente ter alguém: menos mal). Se homem casado é uma encrenca que você não procura, caia fora.
  • Fotos mostrando o dedo médio: o que significa isso? O tamanho do membro dele? Ou o nível da sua educação? Isso é sinal de ousadia? Ele que aprenda a ser ousado lendo a biografia do Gandhi!
  • O AA (Alcoólicos Anônimos) deveria inserir anúncios nesses ambientes de paquera virtual porque a quantidade de pessoas com copo na mão das formas mais deselegantes é absurda. Você quer alguém imaturo a ponto de se orgulhar das próprias bebedeiras?
  • Caso só haja fotos de viagens e paisagens em que ele aparece distante ou de costas ou fotos bem próximas de qualquer parte do corpo dele, esqueça esse perfil. Qual a razão para alguém não se mostrar claramente? Quem quer ver o close de uma íris ou de uma boca? Quem quer ver um pontinho na frente do Big Ben ou da torre Eiffel? Essa pessoa quer atrair você ou te enganar?
  • O cara tem filhos e os ama. O.k., mas um aplicativo de paquera não é lugar para expô-los. Pior ainda quando todas as fotos dele são com os filhos: será que há espaço para mais alguém na vida desse homem?
  • Me perdoe, mas terei de ser rude agora. Fotos sorrindo, beijando, fazendo sinal de positivo ou qualquer outra pose ao lado de animais selvagens obviamente dopados são ridículas e escrotas. Sabe “o horror, o horror” que Marlon Brando sussurra em Apocalypse Now? É o que eu sinto.
  • Não é conveniente se estender em longos textos de apresentação num perfil virtual; algumas linhas, porém, são bem-vindas, desde que não sejam clichês. Vamos ver alguns?

▪ “Curto as coisas boas da vida, aproveito cada minuto como se fosse o último: carpe diem!”. Ei, rapaz, que tal um pouco de foco? O que são coisas boas para você? Como exatamente você aproveita cada minuto: fumando crack ou lendo um livro?

▪ “A little less conversation, a little more action, please.” A canção de Elvis significa que ele quer um encontro com sexo e rápido. Não sei como uma mulher pode se interessar por alguém desse tipo, enfim, tem gosto pra tudo.

▪ “Quem se descreve, se limita”. Sem rodeios? Isso é desculpa de gente presunçosa, preguiçosa e incapaz. (Para entender por que essa frase é uma bobagem, leia a crônica “Escrever é um acerto de contas”.)

▪ “Sem mimimi”. Creio que uma tradução dessa frase neandertalesca dirá tudo que precisamos saber: “Eu sou um homem das cavernas, não aceito diálogo, uso violência de todo tipo e exijo que você faça sexo como eu quiser, quando eu quiser e onde eu quiser”.

  • Nem preciso dizer, mas digo: ameaças, discursos de ódio, listas do que ele detesta nem é fria, é uma Era Glacial inteira.
  • Há homens que dão vários de seus endereços virtuais: é como se eles dissessem “está tudo aqui, não me pergunte nada”. Ora, quem vai fazer uma pesquisa sobre a vida do gajo e avaliar cem páginas de publicações antes de dar sim ou não ou escrever uma mensagem de olá? Outra coisa: ninguém jogaria seu currículo na mão de estranhos – e, caso eles não tenham notado, nesses aplicativos o que mais tem é isso, estranhos.
  • Para fechar, falo sobre minhas fotos preferidas: as de língua de fora! Elas são excelentes para mostrar o estado de saúde do homem em questão. Uma língua suja, esbranquiçada, com talhos, bolinhas vermelhas ou colorações diferentes, só mostra uma coisa: o cara está podre por dentro – essa boca ninguém deve beijar mesmo!

Por fim, resta a questão fundamental: vale a pena se aventurar nesses aplicativos? Eles são seguros? Não há cafajestes, golpistas, malandros, estupradores, farsantes, abusadores de toda sorte? Não vou mentir: há, sim. Como também os há na fila do cinema, na faculdade, na casa dos amigos, no trabalho, no parque, nos templos religiosos, na vida, enfim. Entre a tentativa e a cautela, melhor ficar com as duas, juntas.

(Obs.: Este texto faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.)

A Louca em você e as canções infantis

Há um movimento que pretende reescrever as canções de ninar a fim de tornar suas letras politicamente corretas. Dizem que essas canções possuem mensagens nefastas e que nossas crianças desenvolveriam ideais mais positivos sem sua influência. Peço aqui licença para uma interjeição: quá!

Limpar as canções infantis é como criar uma pessoa dentro de um ambiente controlado e perfeito: quando ela se deparar com os bois da cara preta da vida real, estará tão despreparada que isso será equivalente a levar um soco fatal. Tomemos como exemplo uma letra que supostamente destruiria a fé no amor romântico: “O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”. Quem vai se machucar mais na vida: uma menina que acredita que toda manifestação de afeto é pura e eterna ou uma que sabe que existe o amor verdadeiro e o amor de vidro?

Estão querendo dedetizar a cabeça das nossas crianças. O boi da cara preta, a cuca ou o bicho-papão causam muito mais fascínio do que medo. Por quê? Porque todos, incluindo crianças, têm seu lado bicho-papão e é saudável, para não dizer essencial, que ele seja aceito, incorporado à personalidade e transformado em poder criativo.

O livro “E a Louca tinha razão!”, de Linda S. Leonard, afirma que todos temos, dentro de nós, um louco e um juiz. O juiz é o censor, o que dita as regras e impõe limites; o louco é o responsável pela impulsividade, pelos atos criativos, pela intuição. Quando nossa Louca (figura arquetípica tão fundamental quanto a Juíza) se sente aceita e integrada, ela é preciosa, porém renegada às catacumbas do inconsciente é terrível arma de destruição. Diz o texto: “A raiva e outros sentimentos negados ou não reconhecidos, se forem separados do resto de nossas vidas, enchem a Louca de veneno que alimenta os atos destrutivos. (…) Para que possamos transformar essa energia furiosa numa força criativa e útil, precisamos primeiro examiná-la cuidadosamente em nós mesmos (…). Não podemos nem devemos simplesmente deixá-la de lado como anormal ou apenas louca”. Assino embaixo – assino e tatuo: uma das minhas tatuagens, não por acaso, é a frase “Para encontrar a Louca”.

Como a criança saudável que se nutre de bruxas e fadas, convide sua Louca para almoçar. Ela é doida, você sabe, mas é a única capaz de realizar na sua vida as revoluções pelas quais você há tanto tempo espera e precisa.

A validade do amor

Qual o prazo de validade do amor?

Pense em todas as vezes em que você disse a alguém que o amava, que nunca havia experimentado aquela imensidão de sentimento, que queria ficar com ele para sempre, que ele era o homem da sua vida, que você estava apaixonada até o talo da alma, etc., etc., etc. Lembrou?

Ótimo. Agora me diga: aqueles arrebatamentos todos, aquelas frases todas, que em algum momento foram reais, ainda valem hoje? Uma por uma? Todas?

Se todas as palavras românticas que se derramaram pela sua boca no passado não têm mais validade, as que foram ditas para você também não têm. A validade do amor é agora.

De amor que foi ninguém vive. Você já viu imagens que simbolizam Buda jejuando? Tentar se alimentar do amor que foi é como caminhar sobre a terra à imagem e semelhança de um Buda em jejum. Dói olhar, quanto mais sentir, quanto mais viver morta assim.

Amor eterno é o que é agora e no agora se renova – não o amor que foi declarado em mil novecentos e bolinha e nunca mais, não o amor que vive só na boca da pessoa e não nas suas atitudes, não o amor que tenta se impor por constantes exigências.

Amor bom é o que existe hoje. Se houve uma ruptura porque você quis assim, porque ele quis assim ou porque vocês dois assim quiseram, qual a razão para continuar parada suspirando num espaço que não existe mais? O que foi um dia chamado de amor hoje é vaso quebrado, é tecido roto: não mantém a água dentro dele, não agasalha seu corpo. Saia daí. Saia imediatamente daí!

Dizem que o amor verdadeiro é eterno e que se não é eterno é porque não era amor verdadeiro. Muito bem. Mas algo só pode ser chamado de eterno se houver renovação constante – senão a eternidade foi para o espaço. Se é amor, se é eterno, só há uma maneira de provar: ele ser todos os dias.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Convites e seus (não) encerramentos

Tudo que começa precisa de fim. Inícios e términos formam uma unidade indivisível e constante na natureza. Não colocar um fim em algo que foi iniciado é promover o caos, é não permitir que haja outro início, é suspender o movimento da vida. Algo que se recusa a terminar impede o começo do que deve vir depois.

Que tal um exemplo? Podemos escolher um.

Suponhamos que você seja um homem e tenha convidado uma mulher para jantar com fins românticos. Se você a convidou, não deixe a frase no ar como algo que foi dito sem querer, materialize o convite e jante com ela ou diga que reencontrou uma ex-namorada e que decidiram voltar ou diga que prefere ser apenas amigo dela (a mais comum das desculpas educadas para cair fora) ou diga que precisa mudar o dia do jantar ou diga que decidiu ficar sozinho… mas diga alguma coisa! Um convite feito precisa de encerramento!

Se foi ela quem te convidou para jantar (ou para seja lá o que for), aceite e vá com ela ou diga que você estará com sua ex-namorada com quem você acabou de reatar ou diga que é melhor vocês serem amigos (e viva a delicadeza) ou diga que é necessário mudar o dia do encontro ou diga que você resolveu ficar sozinho… mas diga alguma coisa! Encerre o convite!

Um encerramento bem feito, com elegância e clareza, promove outros recomeços, abre outras estradas, tempera convites diferentes, mais de acordo com o que você deseja daquela pessoa.

Um não encerramento, um silêncio inconclusivo, arrastado, dúbio, deixa no outro um troço nada agradável chamado mágoa. E a mágoa é como um cãozinho esperto: você pode abandoná-lo bem longe de casa, em outra cidade até, mas ele volta, ele sempre te acha.

Ah, o confronto: ninguém gosta de confrontos. É verdade. Mas para isso existem mil formas de comunicação virtual e até mesmo os bilhetes deixados nas portarias do mundo. Bastam alguns minutos e um naco de comunicação. Nem entro aqui no fator gentileza: sugiro o mínimo do básico. Duas ou três palavras ao menos: encerre de alguma forma, mas encerre! Faça do jeito educado ou seco, mas faça!

Há quem não encerre nada a fim de conservar algumas opções ao alcance da mão para os momentos de estiagem. Há homens e mulheres que mantêm seres humanos à espera da sua fome como frutas variadas numa fruteira. Mesmo que tal atitude seja recíproca – e o melhor é que ela seja –, respostas aos convites feitos continuam sendo fundamentais.

Não encerrar algo que foi começado é prender a pessoa e matá-la de fome. Percebe que é muito mais dolorido do que um corte súbito? É cruel não responder, é vil não encerrar, é maldade ignorar. Por favor, encerre o que foi começado. Do mesmo modo que eu encerro agora esta crônica: com um claríssimo e definitivo ponto final.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.