Acreditar não é crime.

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Obs.: crônica publicada no livro “Os Indecentes” de Stella Florence, Ed. Rocco.

O que acontece com uma mulher estuprada? Ela acha que, de alguma forma, foi responsável pela concretização das intenções bestiais daquele homem. Desse modo, na tentativa de encontrar razão para um ato irracional, ela se autoflagela. Por que eu passei por aquela rua? Por que entrei naquela sala? E se eu não estivesse com aquela blusa de renda? E se eu não tivesse entrado no carro dele? Numa total inversão de valores, a culpa passa a ser dela.

Ocorre o mesmo quando, por amor, acreditamos num relacionamento que termina sendo catastrófico. Rosa recebe mais uma intimação e se desespera: ela se separou em 1999 e ainda hoje tenta saldar as dívidas que o ex-marido deixou em seu nome. “Quando eu titubeava em assinar alguma coisa, ele dizia que era meu marido e que eu tinha de confiar nele. Depois da separação, minha mãe perdeu a casa, meu irmão vendeu seu carro, tudo para me ajudar. Como eu pude ser tão burra? Eu tinha de ter desconfiado!”. Não, Rosa, você não tinha. Você até poderia, mas não tinha a obrigação de desconfiar. Mais uma vez, a vítima é responsabilizada. Seu crime? Ter acreditado no homem que se dizia seu marido.

De acordo com esse jeito torto de pensar, um homem pode, por exemplo, ter entrado em sites de relacionamento romântico enquanto estava junto (e bem) com você, pode ter mantido seduções clandestinas debaixo do seu nariz, pode ter deixado em suas costas dívidas que não te pertencem, e ainda assim quem anda curvada pela rua é você por ter acreditado nele? A culpa agora é sua?

Não, amiga leitora: levante a cabeça já! Você não tem nada, rigorosamente nada, do que se envergonhar. Verdade que, além de lidar com cobranças internas, ainda há os outros que te acusam de ter sido ingênua ou burra. E desde quando ingenuidade é pecado? Desde quando até mesmo a burrice é crime? Quem abusou da sua ingenuidade (ou da sua burrice, como insistem alguns) é que realmente deve se envergonhar, não você. As reflexões amargas sobre o que mudar cabem apenas a você – e certamente elas serão feitas. Aos outros caberia o acolhimento, não a acusação.

Portanto, não se envergonhe por ter se entregado. Não se envergonhe por ter acreditado. Não se envergonhe jamais por ter apostado tudo num amor, mesmo que ele só tenha existido dentro de você.

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Educação para a morte

Após enviar este e-mail a um amigo, recebi dele a seguinte resposta: “Compreendo que sua intenção é boa, Stella. Fiquemos por aqui quanto a esse assunto”. Creio que, embora se trate de um e-mail pessoal, não devo sonegá-lo de você, leitora. Aqui está seu conteúdo, na íntegra. Que ele te seja útil, no momento adequado.

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*****, querido, quanto à conversa que tivemos ontem, me permita dizer algumas palavras sobre a expressão que usei (“lamento que você não acredite na vida após a morte”). Tenho (mais do que o desejo) a obrigação de me explicar. No final, você entenderá minhas razões.

Eu sei que você lerá este e-mail como uma peça de ficção, mas não me importo com isso: apenas peço que leia até o fim. Considerando que em todos esses anos da nossa amizade eu nunca trouxe esse assunto à baila (e ontem ele surgiu naturalmente), creio ser um pedido razoável.

Eu trabalho como médium nas sessões de desobsessão do meu centro espírita há exatos 25 anos, duas vezes por semana (digo “meu centro” apenas por carinho, o correto seria “o centro que eu frequento”).

Muitos dos espíritos que usam as cordas vocais dos médiuns para se comunicar não acreditam na vida após a morte e estão há muito tempo perambulando entre nós, encarnados, julgando-se também vivos (embora estranhem o fato de ninguém os responder e tenham perdido há muito a noção do tempo).

Não é para menos: eles, que em vida não acreditavam em nada ou só acreditavam da boca pra fora, após uma doença, um acidente ou algo que tenha provocado a morte do seu corpo, continuam existindo, pensando, experimentando sensações “físicas” (fruto de ilusão) como fome, frio, sede, cansaço, dores (crendo-se ainda vivos, eles se prendem mentalmente às sensações da matéria e as recriam em seu corpo somático, chamado “perispírito”). Como diz muito bem o filme O Sexto Sentido: “Eles só veem o que querem ver”.

Espíritos amigos, bondosos ou familiares desencarnados, os conduzem a uma sessão espírita sem que eles percebam. Supondo comparecer a uma reunião qualquer cujo conteúdo não conseguem entender, eles começam a falar com o dirigente da sessão (alguém apto à conversa fraterna), crendo-se perfeitamente vivos.

Quando veem que falam através de um corpo que não é o seu, eles nos acusam de bruxaria ou prestidigitação, de termos dado alguma droga a eles, se julgam loucos, mas, devagar, começam a considerar a possibilidade daquelas informações sobre seu novo estado serem verdadeiras.

É nesse ponto que vemos, nas sessões, a cena (que seria risível se o nosso respeito não fosse total) de um espírito, através do médium, dizer: “Mas que besteira é essa de que eu morri?! Morreu, acabou! E eu estou vivo!”.  Como nós, eles veem o que querem ver.

Seus olhos só se abrem para a realidade de que apenas seu corpo de matéria densa morreu enquanto seu espírito continua vivo quando, ainda envolvidos pelos fluidos do médium que favorecem esse processo, eles conseguem ver algum amigo ou parente que desencarnou antes deles e que ali está para acolhê-los e apresentá-los à nova vida.

A surpresa é sempre grande e a vergonha também: nada mais natural – é muito difícil mudar de ideia sobre algo que guiou nossos passos por tantos anos. Provavelmente eles têm sido céticos por muitas vidas e sempre que mergulhados de novo na carne voltam ao apego material e à ideia arraigada de que nada existe além dos seus sentidos. A natureza não dá saltos. É compreensível que assim seja até que o espírito assimile profundamente o fato de que todos somos imortais e destinados à perfeição, na velocidade dos nossos esforços.

O que vale na vida após a morte não é a pessoa professar a religião A, B ou C (ou nenhuma), mas quanto bem ela fez, quanta caridade praticou, quanto se esforçou para se melhorar.

Nem todos os materialistas vivem esse processo após a morte: aqueles que foram pessoas caridosas têm muito mais mérito que os religiosos de carteirinha, pois praticaram a caridade sem esperar qualquer recompensa posterior. Pela vibração mais elevada que emitem, mais cedo conseguem ser levados às sessões espíritas (ou são esclarecidos por espíritos bondosos fora delas sem qualquer problema de incompatibilidade vibracional). Na verdade, quando um espírito se comunica numa sessão, muitos outros na mesma situação assistem à conversa e dela se beneficiam, sendo igualmente esclarecidos.

A ausência de uma educação para a morte, meu amigo, gera muita dor – e eu sou uma das incontáveis testemunhas dessa dor.

Talvez agora você suponha que o objetivo desse e-mail é te convencer, mas não é. Sei que você não irá mudar por enquanto. Como sei também que, um dia, você irá morrer e se lembrar dessas palavras onde estiver. Acredito que elas serão muito úteis no momento oportuno. E elas foram ditas porque eu me importo com você. Simples assim.

Sua amiga,

Stella

Depressão e as variações da Ilha de Caras

Veja o vídeo no meu Youtube.

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Quantas pessoas você conhece que estão ou estiveram com depressão?  Veja que eu nem perguntei se você conhece alguém, eu já te pedi um número: quantas pessoas? Você provavelmente perdeu a conta. Eu já perdi.

Claro que sempre existiram estados depressivos na história da humanidade, mas é inegável, até mesmo para uma leiga completa como eu, que nós atravessamos uma epidemia mundial e inédita de depressão. E é com a liberdade de leiga, de escritora de literatura ficcional, nada mais, que eu ouso fazer algumas reflexões, naturalmente desqualificadas de qualquer cientificismo.

Ser feliz hoje se tornou uma obrigação social, uma urgência tácita te constrange a manter os dentes sempre à mostra. A virtude do sacrifício, por exemplo, passou a ser vista como absurda. E eu me pergunto: você pode ser um boa mãe ou um bom pai se não souber se sacrificar de bom grado? Sem abnegação você não dá conta sequer de uma noite de bronquite de uma criança.  E mais, sem sacrificar-se você nunca sentirá a doçura do abraço sadio dessa criança após uma noite em claro cuidando dela. A paz que se constrói com a abnegação pode ser chamada de uma felicidade segura, no entanto a que todos buscam hoje é a mais infantil e fugaz que existe.  É a felicidade do porre, do tiro, do auge, da adrenalina, das malas de dinheiro, da fumaça, do gozo branco, do gozo marrom, do gozo em pó, em cliques, em sorrisos falsos, como se criássemos em nossos perfis sociais infinitas variações da Ilha de Caras: fotos que enganam todas as pessoas, menos as que estavam lá.

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A depressão, a meu ver, é uma reação (psíquica, espiritual, física) a algo que se tornou rotina: a fuga da realidade e o fingimento da felicidade. Ninguém acorda das próprias ilusões, das mentiras que conta aos outros, que conta a si mesmo, muitas vezes por décadas seguidas, sem susto, sem dor.

Deprimir-se, portanto, além de uma doença cujos efeitos precisam ser medicados, talvez seja também um amadurecimento intransferível, um contato com a realidade tão insistentemente evitado. A realidade é como uma bola inflável que mantemos no fundo de uma piscina. Ao menor deslize, à menor invigilância, ao menor cansaço dos nossos músculos, a bola vai escapar e vir à tona.

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Talvez essa epidemia da depressão seja sinal de que, a duras penas, os homens estão sendo forçados a ver a brutalidade das suas instituições, o egoísmo das suas fronteiras, a puerilidade das suas conquistas. Talvez cada pessoa deprimida esteja finalmente vendo o ridículo dos seus preconceitos, a solidão do seu orgulho, o vazio das suas más escolhas. Todos nós sabemos quais são os nossos pontos fracos e o tanto de energia que gastamos para fugir deles, para ocultá-los do mundo e de nós próprios.

É possível, é bastante possível, que a depressão nos forçando, como indivíduos e como civilização, a um encontro doloroso, porém libertador, com a verdade, carregue dentro de si mesma o início da nossa cura.

 

Estupro e abuso infantil: tenho um pedido a fazer

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Obs.: Veja no vídeo no meu canal do Youtube.

Quero te pedir uma coisa. É delicado, eu sei, mas eu preciso fazer isso, assim, olhando nos seus olhos. Mas antes vou te contar uma das mais emocionantes situações pelas quais passei como escritora.

Após o lançamento do romance “Eu me possuo”, que trata da superação de um estupro, eu recebi ainda mais e-mails do que de costume de leitoras confidenciando as violências pelas quais passaram. Triste dizer que isso é uma rotina para mim, eu sei, mas é a verdade. Dentre esses relatos, quero contar um em particular.

Uma moça, casada há alguns anos, me relatou os abusos sexuais que sofreu de um familiar por toda a infância. Inspirada pela carta que minha personagem, Karina, escreve ao seu estuprador, ela decidiu escrever uma carta também, não ao seu abusador, que já estava morto, mas ao seu marido, contando tudo pelo qual ela havia passado, tudo que ele não sabia e que acabava por desaguar na vida íntima de ambos. A carta foi escrita e entregue, no entanto seu marido permaneceu dias e dias sem falar com ela, sem sequer mencionar o conteúdo bombástico daquelas revelações. Por fim, quando minha leitora começava a cristalizar em si uma nova mágoa, o marido a procurou para conversar a respeito da carta. Ele então disse que ficou muito abalado e em silêncio todo aquele tempo não só pelo drama que ela atravessara, mas porque ele também havia sido abusado na infância.

Acredito que ambos iriam se conectar nesse nível mais profundo, sem segredos fundamentais, em algum momento de suas vidas. Talvez o gatilho dessa revelação dupla fosse um filme, a palavra de um amigo, uma palestra, uma canção, mas eu me sinto tão honrada de que tenha sido um livro meu!

É por isso que eu preciso te fazer esse pedido. Se você foi abusada na infância, se foi estuprada na vida adulta, se sofreu violência sexual e se essa violência deixou traumas, considere seriamente contar para o seu parceiro (ou parceira) o que aconteceu. Conte. Sonegar essa informação é manter um muro invisível entre vocês. Sonegar essa informação é causar a falsa ideia de que o problema é ele. Sonegar essa informação é deixá-lo sem elementos para te ajudar, para te acolher. Isso sem contar com a possibilidade concreta de que tal violência também tenha acontecido com ele e ele sinta a mesma dificuldade que você (ou ainda maior) para revelar isso.

Seja lá o que tenha acontecido, independente das circunstâncias, você não tem nada do que se envergonhar. Quem tem de se envergonhar é quem comete a violência, não quem a sofre.

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Se, por exemplo, uma mulher for até a casa de um homem que ela deseja ou se ela for a um motel com ele, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador. Desejar transar com uma pessoa não é o mesmo que desejar ser estuprada por ela. Outro exemplo mais radical: se uma mulher for sem calcinha a um baile funk, beber, se drogar e decidir fazer parte de uma orgia no final da noite, um estupro só vai acontecer se houver um estuprador.  Não é o comportamento da vítima que gera o crime, mas sim a existência de um criminoso.

Há alguns anos eu entrevistei uma delegada de polícia. Ela disse que essa ideia de que roupas provocantes ou comportamento extrovertido são causas de estupro são estatisticamente falsas. Estupradores fogem de mulheres espalhafatosas porque eles acreditam que elas os podem subjugar e para se sentirem superiores eles escolhem justamente as recatadas que, na sua fantasia, não lhes podem oferecer resistência.

Há manuais aconselhando as mulheres a evitarem um estupro: não saiam sozinhas, não bebam, não usem roupas provocantes, não confiem em estranhos, como se estivéssemos submetidas a um eterno toque de recolher (e como se a maioria dos violadores não fosse próxima e conhecida). No entanto, a verdade é que só há uma regra para evitar esse tipo de violência: estupradores, não estuprem!

Por fim, repetirei a frase que uso em todas as minhas palestras e que, infelizmente, é a mais crua verdade e um símbolo de quão longe ainda estamos de exterminar esse câncer: se todas as vítimas de estupro fossem marcadas por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, não haveria mais noite no mundo.

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O planeta dos esquecidos

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Hoje me dei conta de que vivo no planeta dos esquecidos. Estou olhando através da janela do meu apartamento e, ao mesmo tempo, num limpíssimo espelho que mostra exatamente quem eu sou: eu sou nada, eu sou ninguém.

Não consigo compreender como tantas pessoas dividem a vida com você por um tempo e depois desaparecem completamente como se você nunca tivesse existido.  Como elas conseguem se descartar das lembranças desse modo?  Como conseguem encaixotar-se em novos compartimentos sem manter limpos os aposentos que abandonaram? O passado não precisa de clausura e mofo para continuar a ser passado. Um homem (ou mulher) que não faz parte mais do seu cotidiano e está inacessível aos afetos românticos que entre vocês já morreram pode muito bem continuar a ser uma pessoa querida.

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Por que você não pode manter um contato amistoso com seu ex, considerando que o rompimento não se deu por graves estragos?  Por que não pode trocar algumas palavras gentis por ano, que seja no aniversário ou no Natal? Por que não pode tirar uma dúvida sobre a área profissional dele? Por que não pode compartilhar a reflexão sobre uma peça ou um filme? Por que nos encarceram num sarcófago quando a relação termina? E eu não me refiro, que fique claro, a recuperar o amor de casal, eu estou falando de gentileza, de consideração, de amizade.

Quando ele esquece quem fez parte de sua vida, ele cai na vala comum. Eis aí, senhoras e senhores, o exato instante em que alguém especial se torna apenas mais um, se torna igual aos outros.

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Então eu sou assim, uma estranha no ninho, porque eu não me esqueço. Minha alma segue cheia de talhos, como um mapa, repleto de rios, cordilheiras, cavernas, vales sulcados por arados cruéis, mas sem recusar uma palavra amiga a quem conviveu comigo (a não ser a criaturas perigosas e perversas das quais quero distância).

É isso. Não importa quão significativas tenham sido suas relações, não importa o quanto você tenha se doado, como mulher e parceira, não importa quão rica tenha sido a troca intelectual entre vocês, não importa a amizade que você supôs existir, você vai desaparecer completamente porque vivemos num absurdo e monstruoso planeta dos esquecidos.  Mas eu insisto: quem apaga o seu passado, destrói as pontes do futuro.

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Competição: quando todos nós perdemos

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Masterchef. The Voice. Big Brother. Dance Moms. The X Factor. Games de programas de auditório. Trânsito agressivo. Inveja entre colegas de trabalho. Irmãos ciumentos. Essa lista poderia continuar indefinidamente. Por quê? Porque estamos todos contaminados pelo vírus letal da competição.

O modo mais fácil de você desperdiçar sua vida, de se manter em coma, de ser uma morta-viva, um zumbi acéfalo, uma sonâmbula inconsciente dos machucados que gera em si mesma e nos outros, é se manter competindo o tempo todo.

Há pessoas que dizem com o peito estufado “eu não levo desaforo pra casa” ou então “eu sou muito competitiva”, como se esses comportamentos fossem qualidades! Toda vez que ouço alguém dizer isso, tenho vontade de mandar uma coroa de flores em memória àquela vida que já acabou faz tempo. Porque se um perde e o outro ganha, todos perdem.

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Aqui vai uma situação cotidiana para que você repense suas reações: experimente na próxima reunião profissional ou de família se calar assim que alguém te interromper e deixar que essa pessoa fale até esgotar o assunto. Quando ela terminar, você continua do exato ponto em que parou (a não ser que intervenção dela tenha acrescentado algo digno de nota, coisa que provavelmente não acontecerá: o ansioso não tem conteúdo). Não é competindo que você se destaca: é se negando a competir. Mas e se for um debate? Você será mais respeitada e ouvida falando 2 minutos serenamente do que meia hora esganiçando.

Enquanto você compete com tudo e com todos, você não vive, você vegeta. Viver não é competir, é o oposto: é cooperar. Vida pulsante, vibrante, quente, luminosa é cooperação. Qualquer atitude ou pensamento que seja colaborativo te expande, te acorda, te fortalece tanto quanto ideias e ações competitivas te amesquinham, enfraquecem, selam o seu corpo numa mortalha.

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Competir é algo tão danoso quanto comum – e acontece até mesmo nas ocasiões mais inesperadas. Outro dia soube que uma conhecida havia acabado de passar por uma situação dolorosa e a procurei: “Eu também já passei por isso, se você quiser desabafar, conta comigo”.  A resposta que essa moça me deu fez com que eu fugisse dela horrorizada. Erguendo a voz agressivamente (coisa que eu abomino), ela me disse: “Mas eu aposto que o seu caso não foi tão ruim quanto o meu!”. Oi? Ela estava competindo comigo para ver quem se ferrou mais? Não, obrigada. Minha oferta expirou ali.

Portanto, eu te peço algo simples e difícil: primeiro perceba o quanto você funciona no modo competição e depois desligue essa chave. Substitua, em todos os seus atos, a competição pela colaboração. Mesmo que só você faça isso, siga sem cessar de alma leve – porque competir é desperdiçar a vida numa anestesia cheia de pesadelos – além de ser burrice.

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Como distinguir um canalha fanfarrão de um homem que vale a pena?

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Você já ouviu um homem que te interessa falar que tem medo de se envolver ou que precisa ficar sozinho? Essas duas situações não são lendas urbanas: elas acontecem. Podem ser apenas desculpas esfarrapadas? Podem, mas ao lado dos canalhas fanfarrões, existem, sim, homens que estão falando a verdade. Aliás, entre o canalha e o homem que vale a pena existe uma plêiade de tipos que muitas vezes até se cruzam num mesmo homem: o confuso, o imaturo, o leviano, o inconsequente. Então como distinguir um do outro? Como saber quando esperar ou seguir em frente?

Há duas respostas para essa dúvida, ambas eficientes e confiáveis. A primeira é sua intuição. Ela não erra: nem pro bem nem pro mal. Mas você precisa enfiar a cara no gelo ou no fogo com toda força e ter coragem de escutá-la porque nem sempre ela vai dizer o que você quer ouvir.  Você vai querer esperança e ela te trará morte. Você vai querer morte de uma vez, chega de sofrer, e ela te trará esperança.

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Pense em alguns exemplos que passaram pela sua vida. Percorra-os novamente agora, ponha-os em fila, parágrafo a parágrafo . Você sempre soube a resposta.

Enquanto você parece absorta na distante copa das árvores, você flagra um carinho morno na sua mão e um olhar significativo. Ele te trata bem, mas não é por amor, é pena. Ele não sabe como te dizer para ir embora. Sua intuição sente que ali não há nada além de um punhado chocho de piedade.

Houve carinho real e profundo no primeiro abraço que vocês, se esquecendo completamente de que estavam numa fila de cafeteria, trocaram longamente. Embora ele tenha tentando não ser colhido pela sua ternura, foi inevitável constatar que aconteceu um encontro raro. Sua intuição diz: haverá dor, mas espere.

Ele te pega e te larga, numa semana se mostra decidido a construir algo com você e cheio de doçura, na outra nem uma palavra de acalanto, nem um pólen de afeto. Loucuras de estimação são pródigas em não nos amar. Enquanto nos mantém sob seu jugo, seus corações estão blindados: não há qualquer fresta ali. Sua intuição sabe que é inútil bater numa porta fechada.

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Numa manhã, as lágrimas dele são como um luar líquido prateando sua cama. Você se emociona ao compreender quão corajoso ele precisou ser para se desnudar daquele modo. Sua intuição sussurra: abrace-o e espere.

Ele não te manda mais músicas nem flores nem imagens solares nem bom dia nem boa noite:  a fome e a sede tomaram conta de tudo. Não vai ser dessa vez que você finalmente vai ser amada e viver um pouco: sua intuição decreta que você voltará aos livros e observará a vida apenas através das paredes da sua casa de vidro.

Seus dedos percorrem os cabelos dele sem pressa. Ele começa a dormir e você se abaixa para sentir o cheiro do seu sono. Cada pedacinho dele possui um aroma diferente. Jean-Baptiste Grenouille, do livro “O perfume”, faria uma essência perfeita com esse homem. Sua intuição inspira e diz: espere mais um pouco.

No começo desta crônica eu disse que há duas maneiras para saber quem é o homem que está se relacionando com você. A primeira delas, a que me referi durante todo o texto, é a intuição. Mas e se você estiver com dificuldade de ouvi-la? Qual caminho também eficiente e confiável existe para te guiar nessa selva romântica? É o tempo. Se esse homem disse a verdade, se ele vale a pena, ele voltará – para ficar.

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Primeiro encontro

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“Todos os primeiros encontros são decepcionantes, todos!” Foi isso que ouvi uma amiga cuspir na minha orelha com toda fúria enquanto víamos uma exposição.

– Se você está numa vibe romântica – continuou ela, irritada –, o cara fica cortando sua onda. Se você quer transar com ele, ele fica apavorado para que você não se apaixone. Se você fica nervosa porque vai encontrá-lo, ele diz que isso é fruto de uma alta expectativa. Se você diz que não faz questão de jantar com vinho e velas, ele diz que você não está dando a atenção que ele merece. Não dá pra vencer esse jogo!

Enquanto ouvia os detalhes da sua mais recente aposta afetiva, fiquei pensando… Talvez o grande problema dos primeiros encontros esteja antes de sair de casa, nas conversas que foram travadas entre vocês, esteja na linha com que a mulher costurou esse encontro dentro da sua mente.

Mulheres (e homens) saem para um primeiro encontro pensando no que o outro pode lhes dar, nas suas necessidades, nos seus desejos, nas suas carências e frustrações. Desse modo elas exigem que o gajo em questão supra suas carências (de preferência todas) e sane suas frustrações (de preferência todas). E de preferência na primeira noite. Sei que, colocado desse modo, parece um desastre anunciado. E é! Não há possibilidade de que qualquer prazer, especialmente qualquer prazer duradouro, ecloda daí.

Um bom primeiro encontro deveria ser uma coroação do amor, mas eu não me refiro a esse amor romântico cheio de taxas sob a forma de elogios, promessas e lugares-comuns.

Uma mulher que sai para um primeiro encontro poderia ter não a preocupação do que aquele homem pode dar a ela, mas ao contrário, do que ela pode dar àquele homem. E, obviamente eu não me refiro a sexo, embora ele possa ocorrer.

Por que não ter como objetivo transformar algumas horas do dia desse homem numa experiência prazerosa? Por que não pensar que talvez haja um náufrago do outro lado da mesa e que esse náufrago queira apenas que alguém entenda isso? Talvez haja um sedento de inteligência, de gratuidade, de bobagens, de compreensão, de silêncio. Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?

Em vez de querer amor, por que não sair para dar amor? Amizade é amor. Atenção é amor. Ficar em silêncio é amor. Dar as mãos sem a necessidade de nada mais é amor. Emprestar um livro ou um CD especial é amor. Se preocupar com o outro mais do que com você é amor.

Essa doação não significa se anular ou fingir ser alguém que você não é para agradar, até porque essa é a pior coisa que pode acontecer num primeiro ou num milésimo encontro. Quando você se ocupa em fazer bem ao outro, você forçosamente tem de ver quem ele é. Se você não vir, fará algo de bom de acordo com os seus critérios e não com os dele. Apenas saindo de si mesma você o enxergará – e essa posição é fundamental para que qualquer coisa verdadeira possa nascer. (Sabe quando você sofre a perda de alguém que você não conhecia muito bem?).

Você não tem nenhum controle sobre o que vai receber de alguém, mas tem controle absoluto sobre o que dá, então que tal fazer um uso generoso disso? Experimente pensar com carinho apenas no bem-estar do outro. Quem sabe esse outro não sai de casa com o mesmo intuito? Desse modo, talvez, apenas talvez, possa acontecer um bom primeiro encontro.

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Preconceito contra gordos: não confunda desejo sexual com respeito

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Quando você anda pela praia, por uma feira de rua ou por um evento social, você está se impondo sexualmente a todas as pessoas que cruzam seu caminho? Essas pessoas, todas elas, são obrigadas a se deitar com você? Claro que não – elas não têm a obrigação de te desejar nem você de desejá-las. Parece uma ideia óbvia, mas não é.

 A atriz Mariana Xavier, amiga de todas as horas e uma das pessoas mais lúcidas que conheço, deu um depoimento ao programa Saia Justa no qual disse: “Existe uma diferença entre você não ter preconceito com uma coisa e você desejar essa coisa. Os nossos gostos pessoais, as nossas preferências, elas existem e não são um preconceito. Eu posso olhar para alguém, respeitar aquela pessoa, mas não me sentir atraída por ela e é isso que eu peço para as pessoas: não precisa me achar bonita, mas me respeite, me deixa botar meu biquíni”. Mari, sempre brilhante, se refere ao preconceito contra os gordos, embora a reflexão sirva para todo tipo de preconceito.

Vamos combinar que além da palavra “gordo” não ser um xingamento, esse conceito é altamente questionável. De acordo com o IMC – Índice de Massa Corporal (que considero servir muito bem às indústrias farmacêutica, fitness, da moda e do emagrecimento) eu, Stella, deveria pesar 15 quilos a menos para ser normal. Será? Preocupação com a saúde também não é desculpa para discriminar: gordura não é sinônimo de doença, a não ser que ultrapasse limites bem elásticos.

Achar alguém atraente é da esfera do desejo, compartilhar um espaço com o diferente é da esfera da racionalidade, da civilidade, da humanidade, do respeito. São expressões distintas. Você não precisa desejar para respeitar. A pessoa não está lá para que você a ache bonita ou atraente. Você pode continuar não achando aquela pessoa atraente e respeitá-la. É claro que racionalmente você sabe que uma pessoa na praia não está se oferecendo para você, mas emocionalmente você age como se ela estivesse e assim a agride, a ofende, a rechaça. Isso é agir como se você fosse o centro do universo, como se você fosse a medida de tudo o que existe. Sabe quando a gente passa por um grupo de adolescentes e acha que eles estão rindo da nós? Isso é ser egocêntrico, é achar que tudo se refere a você: na verdade em 99% das vezes os adolescentes nem nos viram, eles estão rindo de outra coisa. É preciso crescer! Então vamos começar por aí: a pessoa gorda no seu biquíni ou negra com suas tranças ou down com seus olhinhos puxados não está se impondo a você, você não é obrigado a achá-la atraente, mas precisa, sim, respeitar o direito dela de estar no mesmo ambiente que você.

No livro “O mal-estar na civilização” Sigmund Freud diz que uma sociedade se estabelece escolhendo um grupo de excluídos sobre o qual jogará toda sua fúria. Podem ser os judeus, os negros, os gordos, os pobres, os homossexuais, os retirantes, os refugiados: tem sempre um grupo eleito para levar porrada. Excluindo o outro você procura saciar neuroticamente seu desejo se sentir especial, acolhido, pertencente a um grupo. Ser rejeitado é horrível, a gente se sente como uma lesma sob o sal, se encolhe, mas você reagir rejeitando o outro não vai te tornar amado. Quando um rejeita e o outro é rejeitado os dois perderam. Ao humilhar alguém você não vai se sentir superior, a sua fome de aceitação e amor vai continuar até que você entre em outra faixa que é a do respeito. Além de ser o certo a fazer, esse comportamento é inteligente, maduro e humano. Porque desejar é uma coisa e respeitar é outra.

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A invisibilidade também te atinge

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Por dez anos eu trabalhei como secretária executiva, seguindo uma rotina comum a inúmeras brasileiras: acordar cedo, bater ponto, cumprir tarefas, almoçar num restaurante por quilo, tricotar um ou outro assunto com os colegas, cumprir mais tarefas, pegar ônibus, voltar para casa.

Durante esses dez anos por diversas vezes experimentei uma estranha sensação: a de ser invisível. Eu poderia estar triste, feliz ou mesmo doente, poderia conversar com samambaias ou me vestir como uma drag queen: ninguém notava, nem mesmo meus chefes. Afinal, eu era uma secretária – e secretárias são invisíveis.

Da mesma forma que copeiras são invisíveis (a não ser que derrubem uma xícara de café no patrão), office-boys são invisíveis (a não ser que deixem de entregar um documento), porteiros são invisíveis (a não ser que demorem dois segundos para abrir a porta), moças nos caixas dos supermercados são invisíveis (a não ser que digitem algo errado), frentistas são invisíveis (a não ser que se esqueçam de calibrar os pneus), mendigos são invisíveis (a não ser que peçam um trocado).

É comum que um veículo de comunicação ou uma ONG traga à baila a questão do que fazer para que a cidade em que vivemos se torne mais humana.  O ato de trocar ao menos duas palavras, se aproximar, mostrar ao outro que ele não é invisível já seria o suficiente para o clima de qualquer cidade – e o nosso clima vibracional – melhorar. O que nos impede, então, de cultivarmos esse hábito?

Medo. Medo de que os outros se aproximem e roubem nosso tempo, peçam nosso dinheiro, se insinuem dentro das nossas casas. Medo de que, abrindo uma brecha, o terrível outro possa desestruturar nossa vida aparentemente segura. Esse medo, tão arraigado quanto nefasto, faz com que nos esforcemos para agir como se os outros fossem invisíveis. O pior é que, aos poucos, não só os rostos dos estranhos como também das pessoas mais próximas começam a perder os contornos.

Esse exercício que especialmente as cidades grandes (mas não só elas) nos impõem não está mais restrito a estranhos. Você vê seus amigos? Você vê seu pai? Ele te vê? Sim, porque você também está perdendo os contornos. Seu namorado te vê? Aqueles que você diz serem seus melhores amigos, te veem? Eles te veem quando você não posta nada no Facebook? Eles sabem quem é você? Sabem o que você sente de verdade? Você sabe?

Em breve, corremos o risco de não vermos mais ninguém – e de ninguém nos ver mais. A invisibilidade é voraz, ela contamina, cega. E não respeita limites.