A tortura pela esperança

Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é ela que faz com que sigamos em frente todas as manhãs. No entanto, a esperança também pode ser uma tortura – e uma tortura muito comum no amor romântico. Para explicar isso melhor, preciso contar uma história.

O escritor francês Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o rabino Aser Abarbanel, que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa Madre Igreja.

O Inquisidor, num momento de agudo sarcasmo, diz que ele mesmo sofre demais ao brindar o acusado com os rigores da tortura, tortura cujo objetivo é conduzi-lo ao caminho do Senhor. Como seus esforços foram inúteis, no dia seguinte o rabino Aser Abarbanel será queimado vivo.

Após o longo discurso (de fazer inveja a qualquer psicopata), o Inquisidor sai da masmorra, deixando atrás de si a porta mal fechada. Eis uma chance para o rabino escapar! Com o corpo crivado de feridas e fraturas, o prisioneiro se arrasta por um longo corredor até alcançar a liberdade. Ao se ver num jardim perfumado, sob a proteção das estrelas, Aser Abarbanel estende os braços e ergue os olhos aos céus em agradecimento. Todavia, nesse instante, alguém o abraça: é o Inquisidor! O rabino então compreende que ele havia acabado de passar pela mais terrível das torturas: a da esperança.

Você sabe bem o que é isso. Após ouvir palavras tão lindas, tão amorosas, tão balsâmicas para o seu coração, você se deita sorrindo, aquele sorriso contínuo que não conseguiriam tirar do seu rosto nem sob uma máscara de ferro. Você dorme acreditando que finalmente sua alma saiu daquela marquise suja sob a qual você tentava sem sucesso se abrigar da garoa e do vento gelados da solidão. Você acha que ganhou um cobertor quentinho, uma cama, um quarto protegido, um endereço emocional e que nunca mais, nunca mais irá sentir frio.

Dias depois, ao encontrá-lo novamente, você alegre, você ingênua, você apaixonada, lê um poema que separou com ternura, lê aberta como uma flor descuidada, flor sem cerca, sem arame farpado. Ao ouvir suas palavras sobre o mar, porém, ele se lembra de areia e cascalhos; ao ouvir sobre o pólen fecundo, ele fala da devastação definitiva do deserto; ao ouvir perfumes, ele te chama para um rio Tietê de dúvida e opacidade. E, assim, ele repudia o seu afeto.

Está doendo um tanto mais agora, eu sei, porque você estava repleta da seiva da esperança. Mas calma, querida, vai passar. De fato, a esperança é a última que morre, mas morre – para renascer mais lúcida em outro endereço.

Obs.: Este texto pertence ao livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Fuja da sua loucura de estimação! (De Profundis)

Ao reler esta semana “De Profundis”, a longa carta que Oscar Wilde escreveu no cárcere ao seu amante, eu fiz algo insólito.  A cada página lida, eu a arrancava do livro e a rasgava. Sim, rasguei todas elas, uma por uma. Meu “Obras completas” está para sempre mutilado – e eu sinto um grande alívio.

A causa da ruína, prisão e morte prematura do escritor aos 46 anos foi apenas uma: ele se rendeu à sua exigente loucura de estimação, que atendia (desde que lhe acenassem com dinheiro) pelo nome de Alfred Douglas. Exigente, para dizer o mínimo. Se bem que todas as loucuras de estimação pedem muito e se doam pouco. Que digo? Não se doam absolutamente.

Você também deve ter uma loucura de estimação. Aposto que você queria isolar o exato instante em que ele ainda te desejava. Queria retroceder ao momento em que, trepada nas raízes ossudas de uma árvore a fim de ficar com a mesma altura dele, você o abraçou pela primeira vez. Enquanto seus cabelos se misturavam, você soube que estava perdida. Ou foi depois? Foi quando ele se despiu das roupas e seu olhar vazio meteu-se em você como uma faca nova? Quando você soube que estava perdida? Houve um momento em que você soube.

Não existe nada mais difícil do que se manter afastada de uma loucura de estimação: se afastar é fácil, já se manter afastada é a prova suprema. Porque, apesar de essa criatura não te amar, de ela não te querer e de todos os enganos que você vê, ainda assim estar sob o seu jugo aflito é o que você mais deseja.

Loucura de estimação é uma doença afetiva da qual você não consegue se curar, uma paixão sem tréguas, um vício agridoce que te alimenta e te devora. É como mergulhar num pântano lisérgico: você supõe estar no paraíso, mas basta respirar fundo para descobrir que está no lodo – e completamente sozinha. É como sofrer da Síndrome de Estocolmo: o homem que abusa de você, que te manipula, que se serve de você quando quer, que não te dá nada, que não se dá de modo algum, que te mantém prisioneira, é justamente o homem que você quer.

A loucura de estimação emite mensagens contraditórias e te sustenta com migalhas. Os suplícios que essa pessoa te inflige se baseiam em te dar cada vez menos alimento para ver até quando você consegue se manter de pé. Ou de joelhos.

Por isso eu rasguei as páginas do “De Profundis”. Parece uma reflexão sobre a dor e a arte, parece uma forma diferente de pensar os Evangelhos, parece o testamento furioso e melancólico de um injustiçado, mas é apenas o lamento de um amante pedindo à sua loucura de estimação que volte, que escreva, que o machuque, que o engane, que o assombre.

Rompa esse relacionamento destinado ao aborto eterno, esse fígado de Prometeu todos os dias reconstituído à espera do predador, e fuja o quanto antes! Fuja de um jeito heroico ou humilhante, não importa como, apenas fuja! Abandone essa luta: uma loucura de estimação só pode te destruir e te causar dor; muito mais dor que prazer, infinitamente mais dor que prazer. Não escreva seu próprio “De Profundis”. Só por hoje, fuja!

Obs.: Esta crônica pertence ao livro “Loucura de Estimação” da e-galáxia.

E se no primeiro encontro você soubesse tudo que será dito no fim da relação?

Tenho uma proposta a fazer. Ela é simples: eu proponho que as verdades que nos são ditas no encerramento de um caso de amor sejam reveladas não no último, mas no primeiro encontro. Imagine: tudo que você ouviu ao levar um fora, tudo que esse homem já sabia que iria dizer (ou silenciar), você ouviria ao ser apresentada a ele. Isso iria revolucionar os relacionamentos românticos! Use a memória para revisitar suas últimas relações e faça o teste agora.

Após conversarem num aplicativo de paquera, vocês marcam de se encontrar num restaurante e antes da sobremesa ele te diria: “Eu não consigo me conectar emocionalmente a ninguém”.

Na porta do café, antes mesmo de fechar o guarda-chuva, ele diria: “O problema não é você, sou eu”.

Vocês estão provando quitutes numa feira gastronômica e, antes de pegar na sua mão, ele diria: “Eu não esqueci minha ex”.

Numa festinha na casa de amigos, ele puxaria conversa com você e então… ficaria em silêncio de repente, como um rádio cuja pilha acabou. E não importa o que você dissesse, ele continuaria, a partir daí, sem responder mais nada.

Ao fim de uma palestra, antes de vocês trocarem cartões, ele diria: “Eu não estou pronto para me relacionar. Seria tão bom se você tivesse chegado em outra hora na minha vida”.

Frases desse tipo encerram conceitos que esses homens já sabiam sobre si mesmos quando nos conheceram, mas que convenientemente optaram por nos ocultar. Portanto, para diminuir o número de mortas e feridas, de cicatrizes e sequelas, de aleijões e demências emocionais, eu proponho que eles nos digam tais verdades logo no início. Não seria ótimo? Eu sei, é uma utopia.

Eu continuo me surpreendendo com o quanto os homens malbarateiam as palavras. Eles sabem que nós acreditamos nelas, eles sabem que para nós palavras têm cor, peso, cheiro, densidade, tessitura, elas são verdade! E se você violenta o código estruturante da vida que é a palavra, você é capaz de violentar tudo mais.

Há quem peça desculpas dizendo que no instante em que fez essa ou aquela promessa ela era real. Porém, assim que as coisas mudam – e certamente elas podem mudar – é preciso informar a sua parceira de jogo romântico. Isso é o que uma pessoa com um mínimo de empatia, que é capacidade de se colocar no lugar do outro, faz. Quando as regras mudam, ela avisa. E é muito simples fazer isso, nem precisa de olho no olho: basta uma mensagem. O que não pode é deixar a pessoa no silêncio, no vácuo, porque no vácuo continuam valendo as declarações que foram feitas – e até essas declarações morrerem de velhice, outras coisas preciosas morrerão antes, morrerão junto.

Talvez alguns homens argumentem dizendo que não são tão bons com as palavras como nós, mulheres. Ora, que modéstia! Vocês são tão criativos, tão pródigos, tão insistentes quando estão interessados em nós, por que sofrem esse déficit intelectual quando não nos querem mais? Por que a capacidade discursiva desaparece quando vocês precisam ser corretos, justos, humanos?

O mínimo que um homem deve a uma mulher que se abriu para ele é a clareza. As palavras são o instrumento da clareza – como também o são da tortura. Como ele as usa com você, antes, durante e depois, define quem ele é.

Por que eu vim depois da sua incrível ex?

Ela é especial. Ela te fez conhecer os píncaros do êxtase. Ela foi tudo que você sempre quis. Ela é a melhor, a maior, a única! Pois é. Mas se sua ex é tão perfeita assim, por que te deixou? Você está aí, largado na sarjeta emocional, justamente porque esse anjo de candura te deu um pé nos fundilhos com chute extensivo às bolas. Que raio de amor é esse que ela nutria por você que não se manteve de pé?

Ah, mas ela continua te amando, do jeito dela, é o que você diz. Então tá, cara-pálida. Ela te ama. Eu estou até emocionada com o tanto que ela te ama. Vamos recapitular: ela te abandonou, ela te trocou por outro (e por outras coisas), ela não voltou atrás, mesmo você se debulhando de dor, e agora ela está transando com outro, dividindo colheradas de sorvete com outro, tomando banho com outro, dando risada com outro, indo ao cinema com outro, e isso só pode ser sinal do quê? De que ela te ama, claro!

Há muitas, muitas pessoas assim como você, que cultivam feridas de amores que terminaram e esse cultivo é feito com tamanha volúpia que essas pessoas não se dão conta, nesse autolamber-se ininterrupto, do quanto machucam o possível amor que vem depois (se bem que nesse quadro desértico raramente um novo amor encontra espaço para frutificar).

Mas voltemos a você, cara-pálida – embora não tenhamos saído. Você me disse que o amor com sua incrível-mega-amada-ex terminou na prática, mas não no seu coração, o que é perfeitamente legítimo. No entanto, terminou, certo? Pelo menos no cenário daquele troço mais conhecido como realidade, convivência, intimidade, acabou. Fato.

Portanto, eu quero te perguntar uma coisa: por que você não ficou sozinho? Por que me colocou aí, nesse lugar infeliz, bem depois da sua incrível-mega-amada-ex? Por que tratou de me notar se é só a ela que você vê? Por que eu tive de aguentar você broxando, você chorando por ela, você se esquecendo completamente de me dar prazer, você me comparando a ela? Por que diabos você não meteu seu pau murcho numa sacola e foi para algum retiro espiritual? Por que deu em cima de mim feito um carcará sanguinolento até me ganhar? Pra quê? Pra me fazer passar por uma via-crúcis que é toda sua?

O mais triste é que eu sei que fui a melhor coisa que te aconteceu neste ano. E sei também que você só vai perceber isso quando eu estiver fora do seu alcance, completamente perdida, perdidamente apaixonada por outro – tanto quanto ela, a sua incrível-mega-amada-ex, está agora mesmo.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

O modo como um casal viaja é o modo como ele vive (alteridade).

Alteridade. O que essa palavra tem a ver com uma boa relação romântica? Tudo!

Como exemplo, conto a conversa que tive com um amigo outro dia. Caíque me pediu conselhos sobre seu noivado – e para aconselhar é preciso antes ouvir, não é? Estamos tão viciados em responder, em ter certezas, em expor nossa opinião (como se ela fosse relevante – e muitas vezes não é), que nos esquecemos de escutar, de silenciar, de refletir. Não ouvimos a música até o fim, não lemos o texto todo, não vemos o vídeo inteiro, mesmo assim, em três segundos temos uma opinião sobre o que quer que seja. Leviano? No mínimo.

Mas voltemos ao meu amigo e suas aflições. Caíque e Amanda moram juntos há três anos e planejam o casamento para breve, no entanto um detalhe nada insignificante tem tirado seu sono: o desejo sexual da noiva, ou melhor, a ausência dele.

– Ah, Stella, você escreve sobre essas coisas: me diz, o que eu faço para ela voltar a ser como era?

– Hum. O que você fazia antes que não faz mais?

– Eu? Nada! Ela é que não faz mais um monte de coisas.

– Por exemplo?

– Ah, ela não viaja mais comigo. A gente fazia umas sete ou oito viagens por ano e agora ela não me acompanha mais.

– E como eram essas viagens?

– Trilhas, né. Eu faço trilhas de bike, 30, 60, 80 quilômetros, eu faço parte de um grupo que gosta de pedalar junto. E a Amanda me acompanhava.

– Ela gosta de pedalar?

– Não muito, mas é tranquilo ir comigo porque eu não exijo que ela pedale, sabe? Eu só peço para ela ir margeando o grupo, de carro, bem confortável.

– Sei. E quando é que vocês se encontravam?

– A gente se via a noite, quando chegava num posto de parada. Aí a gente jantava, descansava, ela me fazia uma massagem, era supergostoso.

– Gostoso pra quem, Caíque?

– Ô, também não é assim. Se ela não quisesse me acompanhar, era só ficar se distraindo na cidade mais próxima, numa boa.

– Meu amigo, passear sozinha numa cidade que você não escolheu não é romântico, fazer massagem num namorado exausto e sem tempo pra você não é romântico, ficar acompanhando um grupo de ciclistas como um apêndice, como uma ambulância, como um carro de apoio é zero romântico.

– Mas são sempre passeios legais!

– São legais pra você, não para ela!

Alteridade: natureza ou condição do que é outro. Parece óbvia a informação que seu par romântico é outra pessoa, não? No entanto o que mais se vê por aí são pessoas se relacionando com projeções de si mesmas, como meu amigo. Viajar com seu amor não é incluí-lo no roteiro que você já pretendia fazer: é compor um caminho a dois, em que ambos possam escolher o destino e os passeios, até mesmo alguns individuais se for o caso. No fim das contas o modo como um casal viaja é também o modo como ele, o casal, vive: com consciência da alteridade ou no lodo do egoísmo e da projeção.

50 tons de cinza: o segredo real de seu sucesso

Os anos passam e a dúvida permanece: como explicar o sucesso da franquia de 50 Tons de Cinza? Será por conta do sexo abundante, dos chicotes e algemas, da virgindade de Anastasia ou do dinheiro de Grey? Não, isso é só purpurina. O segredo real é algo muito diferente e subterrâneo.

Mas antes tenho uma pergunta: por que a autora, cujo nome verdadeiro é Erika Mitchell, criou o pseudônimo E.L. James? Por que J.K. Rowling também usa iniciais? Será que um nome neutro, que pode ser o de um homem, inspira mais respeito no mercado? Fica a reflexão.

A gente já sabe que 50 Tons de Cinza é uma fanfic da saga Crepúsculo (fanfic é ficção escrita por fã, tendo como base sua história preferida). Portanto Anastasia Steele é a jovem Bella e Christian Grey é o vampiro Edward, numa versão adulta e humana. Mas e Jacob, o lobisomem? Quem é ele em 50 Tons de Cinza? Ninguém, ele não existe. A autora excluiu de sua fanfic o único personagem que representa, em Crepúsculo, o amor real, o amor possível. O lobisomem é também humano, possui calor, pode ter vários filhos naturalmente e criá-los ao lado de Bella, pode envelhecer com ela, ser um companheiro de verdade. Tem lá seus defeitos, como virar lobo de vez em quando, mas na vida também há problemas – vida real que, com o sumiço de Jacob, foi excluída da fórmula de E. L. James.

O que tornou 50 Tons de Cinza um fenômeno foi a realização de um dos mais comuns e intensos desejos femininos: mudar nosso homem. E, de quebra, se tornar a mulher mais especial de sua vida. Até conhecer Anastasia, Christian nunca havia sido fotografado com uma garota, nunca se ouviu falar que tenha namorado, jamais havia dormido de conchinha com alguém, não levara moça alguma para jantar na casa dos pais e só tocava numa mulher depois de ambos assinarem um contrato. A jovem aparentemente ingênua faz Grey mudar todos esses hábitos.

Dizer que Anastasia é submissa é ver apenas as aparências: aquela moça tem a personalidade de uma dominatrix, com o disfarce da voz mansa e dos olhinhos baixos. Ela é muito inteligente, tem paciência e sabe manipular a seu favor as circunstâncias. Se você duvida, se lembre da cena em que ela leva uma surra de Grey e vai embora dizendo que aquilo ultrapassou seus limites. Quando ele vai atrás dela no elevador, o que ela faz? Chora? Se joga em seus braços? Implora que ele pare com aquilo? Diz que o ama? Não. Ela estende a mão como um guarda de trânsito e grita: pare! E ele para. Quem domina quem?

Anastasia Steele realiza a fantasia de todas nós. Você sai com aquele cafajeste, aquele chato, aquele mandão, aquele golpista, aquele vagabundo, aquele violento, aquele mentiroso, aquele alcoolista, aquele irresponsável, aquele abusador e acredita que o seu amor vai mudá-lo. Mas os homens da vida real, por mais que desejemos isso, não são moldáveis como Christian Grey.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.

Amores difíceis

Acabo de topar com uma das mais assustadoras realidades do mundo romântico. Sempre que a vejo se imiscuir entre meus amigos de forma tão acachapante meu queixo cai. Que realidade é essa? Explico.

Quando uma pessoa é sua loucura de estimação, ela pode fazer e dizer rigorosamente tudo que quiser que você vai aceitar e ainda ficar feliz por ela te brindar com alguma atenção. Ela pode te trair, pode rir da sua libido, questionar sua maturidade, implicar com sua mãe ou sua filha, ver defeito em tudo que você faz (inclusive em tudo que você faz por ela), pode transformar sua vida numa corrida de obstáculos que, ainda assim, você continuará com ela.

No caminho de um romance, posso compreender uma ou outra dificuldade, uma parada nos boxes, um instante de dúvida, um acerto de peças que desencaixam. Mas eu não me refiro a movimentos compreensíveis dentro de um relacionamento romântico vivo. Eu falo de humilhação, senhoras e senhores, eu falo de gente que se entrega a encrencas consumadas – e permanece com elas, mesmo sob as condições mais absurdas.

Aqui está, bebericando café na minha sala, uma amiga a desenrolar o novelo infinito da saga com sua loucura de estimação: um novelo sem ponta, destinado a um eterno retorno ao caos. Eu já vi esse filme: agora ela está babando felicidade pela noite de ontem. E vai continuar babando até levar a próxima invertida. Então ela irá percorrer algumas semanas de dor, lamber o soalho em que ele cuspiu, aceitar as migalhas que ele lhe jogar, pedir desculpas pelo que disse e pelo que talvez tenha deixado de dizer. Finalmente, ela entrará numa espera aflita pela próxima noite de arrebatamento. Antes que essa noite chegue, haverá brigas, frases humilhantes, silêncios ruins.

Eu não acredito em amores difíceis. Luta e amor, para mim, são palavras que não deveriam estar na mesma frase. Se a luta é causada pelo meu parceiro, se ela não é externa e involuntária, eu a repudio. Meu amor não é incondicional e penso que o de nenhuma mulher por nenhum homem deveria ser, o de nenhum ser humano por outro ser humano deveria ser. Se o amor do outro (ou o que ele chama de amor) te fere, te destroça, te humilha, está claro que um limite foi ultrapassado. E tem, sempre, de haver um limite.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela egaláxia.

 

Como usar a palavra “literalmente” de modo correto

De tempos em tempos, algum vício de linguagem, erro de português ou uma invenção inútil se espalha pelo Brasil como fogo em campo ressequido.

Recentemente tivemos a ditadura do “a nível de” e o despropósito do “vou estar fazendo”. Agora estamos mergulhados até o pescoço no uso equivocado do “literalmente”.

Curioso que essas formas esdrúxulas tenham se popularizado pela mesma razão: vaidade. Um ortopedista acha mais imponente dizer “o atleta não tem nenhuma lesão a nível de joelho” do que simplificar “ele não tem lesão no joelho”. A operadora de telemarketing acha mais chique dizer “vou estar transferindo sua ligação” em vez de um simples e correto “vou transferir sua ligação”. Numa tentativa de parecer mais culto, todo mundo se tornou mais estúpido.

Já o “literalmente” não me parece fruto de vaidade: é apenas um engano. Literalmente significa ao pé da letra. Ele não é sinônimo de realmente, não confere ênfase a uma ideia e não pode ser usado como uma espécie de exclamação. Mais fácil dar exemplos, não é?

“Ele saiu literalmente do armário!”. Para alguém sair literalmente do armário, ele precisaria estar dentro de um armário de verdade, abrir a porta (supondo que a porta abra por dentro), colocar um pé para fora, depois outro e sair com seu corpinho inteiro do tal armário.

“Eu estou literalmente morta de cansaço!”. E como é que você está falando?  Chamaram um médium?

“Eu viajei literalmente na maionese!”. Não, não viajou. Nem chefe de cozinha viaja literalmente na maionese – a não ser que o apelido do carro dele ou dela seja maionese. Você conseguiria confeccionar uma moto, uma carroça, um riquixá que seja de maionese para viajar nele?

“Esse homem me deixou literalmente louca!”. Opa, essa pessoa precisa correr ao psiquiatra para internação de emergência – e dá-lhe benzodiazepínicos e outros que tais na veia!

“Ele literalmente faz milagres!”. Estamos falando de Jesus Cristo?

“Essa menina é literalmente um doce!”. “Menina” é a marca de um biscoito de chocolate? De um doce de caramelo? De uma bala de mel? Não? Então a menina não é literalmente um doce.

“Ele literalmente roubou meu coração”. Gente, como essa criatura está andando por aí sem coração? Chama o SAMU, isso é caso para transplante urgente!

“Nossa, isso é literalmente um mico!”. Se estivermos no zoológico, na Mata Atlântica, na Amazônia, em Bonito diante de um macaco pequenino, tudo bem. Caso contrário…

“Minha namorada me leva na coleira literalmente!”. Rapaz, sua namorada é dominatrix? E te leva aonde te puxando pela coleira?

“Você tem de pensar literalmente fora da caixinha”.  Que caixinha, cara-pálida? Só se for a craniana! A única maneira de seguir esse conselho é ser um zumbi com os miolos de fora.

“Caí literalmente na folia!”. Levou um tombo no baile de carnaval? Que dó.

“O sorriso dela literalmente aquece meu peito!”. Como? Ela esquenta os dentes com bolsa térmica e encosta no seu peito a boca escancarada?

Portanto, fica a dica: se você estiver saindo com um homem e ele, à beira da cama, disser “quero te comer literalmente”, torça para que ele seja apenas um dos muitos que fazem confusão com o termo, e não um confrade do doutor Hannibal Lecter.

 

Uma carta de desamor (Porcos não reconhecem pérolas)

Há algum tempo, condoída pelo fora que uma amiga levara, escrevi um texto de presente para ela: uma carta de desamor.

Na época, fez bem a ela ter a experiência materializada em texto: texto que poderia ser entregue ao dito cujo (e foi), texto que poderia ser impresso e simbolicamente queimado (e foi), texto que poderia fazê-la erguer a cabeça e a autoestima (e fez).

Se ele ajudou uma mulher, pode ajudar duas, três… Acrescente o que você quiser ao miolo dessa carta e torne-a sua: o final (um dos meus mantras preferidos) é o que realmente importa.

***

Me desculpe por eu ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter almoçado com você tantas vezes. Me desculpe por ter ligado.

Me desculpe pela chuva que tomamos subindo a Augusta. Me desculpe por ter acreditado nas suas mensagens. Me desculpe por ter rido das suas piadas.

Me desculpe pelos machucados que sua ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo depois dela. Me desculpe por tentar entender seu silêncio.

Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe por eu ter subestimado o que foi ruim e superestimado o que foi bom.

Me desculpe por eu não ter usado máscara. Me desculpe por querer mais. Me desculpe por supor que você também quisesse mais.

Me desculpe por ter dito “sim”. Me desculpe por eu confiado em você. Me desculpe pela cinta-liga que eu comprei para te agradar.

Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonito. Me desculpe por, em algum momento, eu ter acreditado que você era o homem da minha vida.

Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português da sua nova namorada. Me desculpe por a sua nova namorada achar que margaridas são flores menos nobres.

Me desculpe pelos 130 quilômetros de congestionamento que eu atravessei para te ver. Me desculpe pela barata que eu tive de matar na sua cozinha. Me desculpe por eu ter permitido que você deixasse a TV ligada no jogo do Palmeiras enquanto nós transávamos.

Me desculpe por eu ter acreditado que você compreendia meu olhar. Me desculpe por eu ter dito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu disse.

Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você: são para mim. Afinal, porcos não reconhecem pérolas.

 

Qual a maneira mais rápida de acabar com seu relacionamento?

Qual a maneira mais rápida de acabar com o que seu relacionamento tem de bom? Fácil: aja como se fosse mãe do seu homem. Nós, mulheres, estamos afogando nossas relações românticas nesse poço. Temos a péssima tendência de tratar nossos homens como filhos que precisam ser educados, modificados, alertados a cada passo fora da curva. Desse modo nos tornamos criaturas chatas, ranzinzas, castradoras, controladoras, insuportáveis.

Sim, é papel da mãe, em certa medida, ser a chata da história: a que pede mil vezes para o filho escovar os dentes, a que fica no pé para que ele faça a lição de casa, a que ensina de novo e de novo que não se come com a boca aberta. Mas namoradas, esposas, companheiras – me desculpe pela constatação óbvia –, não são mães dos seus homens.

Duas cenas aparentemente desconectadas me chamaram a atenção para isso. Na primeira, estava eu numa pequena reunião com amigos e a namorada de um deles, com o cenho carregado, vira e mexe cochichava algo em seu ouvido, ao que ele respondia contrafeito, também em voz baixa. Na quinta ou sexta vez eu ouvi o conteúdo do cochicho: ela chamava sua atenção quanto ao modo como ele havia cortado o porco, fazendo com que as fatias se esgarçassem em tiras compridas. Bem, o porco estava uma delícia e a mim pouco importava que ele viesse em tiras ou em fatias para o meu prato, mas a moça parecia cheia de razão em sua intransigência. Mais para frente, após um novo cochicho sobre sabe-se lá qual detalhe, o namorado respondeu alto o bastante para que todos ouvíssemos: “Para de me censurar: que coisa chata!”. Chata ficou a noite mergulhada naquela atmosfera baixo astral.

Outra cena. Ontem, atravessando a rua, desviei de uma moto que ocupava metade da faixa de pedestres. Pude ouvir uma moça na garupa dizer ao homem que dirigia: “Não para em cima da faixa!” e ele responder “Não dava pra parar em outro lugar!”. De fato, ele tinha razão. Quando o sinal fechou sua moto e um ônibus estavam emparelhados subindo a rua de mão dupla. O ônibus parou e o único espaço que sobrou para que a moto não ficasse no contrafluxo foi a faixa de pedestres. Ele não deveria ter emparelhado com o ônibus, é verdade, mas naquele contexto o único lugar seguro era onde ele parou. Aposto que aquela mulher na garupa não era irmã do homem ou sua amiga, ali estava um belo espécime de namorada-mãe ou esposa-mãe.

E lá vamos nós de novo para a terra do óbvio: namorado ou marido é homem, não filho!

E antes que me cobrem, já adianto que existe a variação masculina desse monstrengo, é claro: o namorado-pai ou o marido-pai, chato, ranzinza, castrador, controlador, insuportável.

Verdade que em relacionamentos longos há momentos em que o homem pode passar por uma doença, um revés financeiro, um luto, e precise de um apoio mais consistente da sua parceira, pode-se até dizer um apoio materno, mas esses períodos são temporários e mesmo assim deve-se dosar esse cuidado de acordo com a necessidade real, não com o impulso de cuidar. Além de mais, ser mãe do seu homem é muito cansativo, exige um nível hercúleo de atenção e tarefas a cumprir. Não faça isso, não. Ele dá conta de cuidar de si mesmo, você não precisa nem deve infantilizá-lo.  Se você deseja um homem na sua vida, não um filho, simplesmente não aja como mãe dele.