O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes!

Não há dúvida de que “O Fantasma da Ópera” é um fenômeno, mas por que essa história nos atrai tanto?  Por que, muito antes do musical de Andrew Lloyd Weber, nós já nos debruçávamos estranhamente absortos sobre o livro de Gaston Leroux, de 1910 (um livro que, do ponto de vista literário, não chega aos pés dos grandes romances do século XX)?

Em toscas pinceladas, o livro (e o musical) trata de Christine, uma jovem soprano que se divide entre seu misterioso professor de música (Érik, o Fantasma da Ópera) e seu belo amor de infância (Raoul, o Visconde de Chagny).  Estamos então a falar de um banal triângulo amoroso? De modo algum.

A trama nos leva a duas interpretações diferentes e igualmente fascinantes.

A primeira razão para que “O Fantasma da Ópera” seja tão atraente, a maior, a mais profunda, a mais universal é que todos somos Christine e o Fantasma e Raoul estão dentro de cada um de nós. A história é um mito moderno, um símbolo de como se definem as decisões no fundo das nossas almas. O Fantasma simboliza nossa força criativa, nossa vida interior, nossos desejos mais íntimos e vitais, muitas vezes considerados loucos pela sociedade; Érik habita o nosso inconsciente (não à toa ele vive nos subterrâneos do teatro). Já Raoul é a vida exterior, que acontece sobre o palco, à vista de todos, é se encaixar nos padrões da sua cultura e do seu tempo, é fazer tudo conforme esperam de você, sem espaço para dúvida, desafio, mudança.

Portanto, se escolhermos Raoul e a vida de superfície, teremos um perfil no Instagram cheio de curtidas, uma vida exterior invejável, uma família tradicional, muitos ternos e vestidos no armário, mas seremos secos, vulgares, ocos. Já se escolhermos o Fantasma, seremos provavelmente chamados de loucos, mas faremos aquilo que fomos talhados para fazer, aquilo que nossa alma realmente deseja. Quando tentamos silenciar o Fantasma, quando não o aceitamos, não o incorporamos de algum modo à luz da ribalta, ele se torna agressivo, destruidor, se transforma em sintoma, doença, fobia, e nada diminuirá sua fúria, nem mesmo uma dezena de psicotrópicos.

Desse modo fica claro que o que parece ser um triângulo amoroso é, na verdade, a dúvida que enfrentamos cada vez que temos de fazer uma escolha, seja ela pequena ou grande. Por que temos raiva da contínua incerteza da personagem Christine? Por que nos sentimos fascinados pelo Fantasma, mesmo quando ele se torna violento? Por que torcemos para que Raoul pacifique aquele drama logo de uma vez? Por que ora queremos que Christine fique com Raoul, ora com o Fantasma? Porque nós somos ela. O mito do Fantasma da Ópera, portanto, simboliza tudo que nos divide, que nos move, que nos petrifica, que nos expande.

Eu tenho minhas dúvidas se Gaston Leroux sabia que estava escrevendo um romance com esse alcance todo, mas aposto que Andrew Lloyd Weber, que o adaptou para os palcos em 1986 e para o cinema em 2004, sabia muito bem o que estava fazendo. É inegável que ele aperfeiçoou a história. Apesar de um detalhe desnecessário na sua biografia (um trecho da canção “The music of the night” é igual ao de uma ópera de Puccini e um acordo entre as partes solucionou a contenda em sigilo), seu talento é inquestionável, mesmo levando em conta as escolhas seguras que ele fez em termos musicais. Menção honrosa para Charles Hart e Richard Stilgoe que compuseram as letras das canções, hoje tão populares, como All I ask of you, Angel of Music, The Phantom of the Opera, Think of me, Masquerade: cada uma dessas letras sustentaria um novo e detalhado texto a respeito.

“Christine, é preciso que me ame!”: essa é a primeira frase que o Fantasma da Ópera diz no livro e ela nos coloca no caminho da nossa segunda interpretação.

Érik e Raoul são ambos homens abusadores, que submetem sua amada a um inferno no qual a última coisa que importa é o que ela realmente quer. Há, porém, uma diferença fundamental entre Érik e Raoul: o Fantasma é um abusador consciente, irremediável, perverso, sádico, psicopata; já Raoul é um abusador inconsciente, ignorante, tolo, porém não mau.  Na vida há também essas gradações: há aqueles homens (ou mulheres) que sentem prazer em provocar sofrimento e submeter o outro às suas vontades, como também há aqueles que são abusadores por falta de bons exemplos, de uma boa formação, de uma cultura que privilegie a parceria no amor.

Raoul é inconveniente e abusador no livro, já no musical isso foi bastante suavizado, ele mais tenta ajudar Christine do que ditar seu destino. Quanto ao Fantasma, porém, tanto no musical como no romance de Gaston Leroux, é inquestionável que ele é um abusador da pior espécie.

Christine não acreditava no Fantasma da Ópera, mas sim no Anjo da Música, prometido por seu pai: “Quando eu estiver no céu, prometo que vou enviar o anjo para você”, ele disse. Desse modo quando começou a ouvir uma voz maviosa em seu camarim que dizia ser o Anjo da Música, voz cujo dono era invisível e lhe oferecia aulas sublimes, ela aceitou. A ilusão era mantida por um engenho arquitetônico (Érik estava atrás das paredes) e outro vocal (o Fantasma treinou sua voz para projetá-la em qualquer lugar). É sempre assim: num relacionamento abusivo há dois responsáveis, mas só um culpado. Christine era parte daquela relação, era também responsável por ela, mas estava iludida quanto à verdadeira natureza do Anjo da Música, ela não agia com malícia e uma agenda prévia como ele, ela era toda entrega e esperança. Essa disposição não se assemelha a incontáveis casos de abuso?

Christine melhorou muito seu canto a partir das aulas, pois o Fantasma era de fato talentoso, como a maioria dos abusadores. Quantas coisas maravilhosas essas pessoas cheias de energia e verve poderiam fazer caso se pautassem pelo que é justo, nobre e bom?

Em apenas três meses Érik, o Fantasma, havia se tornado não apenas o mestre de Christine, mas seu dono. O Anjo da Música (ou a Voz, como ela também costumava chamá-lo) a proibia de se casar e dizia que se ela o desobedecesse ele iria embora para sempre. Essa não era uma ameaça qualquer: o pai de Christine a ensinara que os músicos geniais o eram porque haviam recebido a visita do Anjo da Música. Ela acreditava, portanto, que perder o Anjo seria perder o dom de cantar!

Certo dia, cansado de ser apenas uma voz, o Fantasma sequestra Christine. Ali, nos subterrâneos, ela é apresentada à figura deformada daquele a quem ela acreditava ser um espírito, o Anjo da Música (é preciso dizer que Andrew Lloyd Weber embelezou muitíssimo o Fantasma, no livro ele é uma criatura inteiramente repulsiva). Em seus domínios, Érik submete Christine a todo tipo de constrangimento até o ponto em que ela tenta se matar. Quando finalmente é libertada, ela diz a Raoul: “Se eu não voltar para junto dele, grandes desgraças poderão acontecer”. Raoul pergunta: “Ele a ama tanto assim?”. E ela responde “Ao ponto de cometer um crime!”. O nome desse sentimento não é amor, mas era assim confundido, como o é até hoje. Abusadores não amam ninguém, mas amam usar todos.

No entanto não eram apenas ameaças que faziam com que Christine voltasse ao Fantasma. Havia também o fascínio: “Ele canta!… E eu o escuto e fico!”. Não é segredo que todo abusador perverso costuma ser cheio de carisma e magnetismo e que mantém a vítima ao seu lado mesmo depois de ela saber que vive uma relação abusiva justamente porque, ao lado da violência, há o encanto. Christine, mais tarde, sintetizaria sua situação dizendo: “É triste, mas eu não era mais dona de mim mesma: eu era um objeto nas mãos dele”.

Assim estava nossa protagonista: sofrendo de um lado chantagens emocionais, exigências descabidas, ameaças e até sequestros feitos pelo Fantasma da Ópera, um abusador perverso, de outro, suportando a insistência de Raoul em ter seu amor correspondido (no livro isso é muito claro, no musical, não) e em convidá-la sem tréguas a fugir, abandonar a carreira e se casar com ele (coisa que acontecerá no final, com um detalhe nem um pouco desprezível: Christine nunca mais voltará a cantar). Seja com o Fantasma ou com Raoul, Christine não é livre.

Talvez alguém diga que um homem como Raoul, que não sente prazer em fazer Christine sofrer, que até mesmo supõe a estar libertando, é um abusador que pode ser salvo, que pode ser mudado. De fato, com o tempo, ele pode ser salvo – mas por ele mesmo, mais ninguém. Esse não é um trabalho que compete a sua parceira ou ao seu parceiro. Na vida real, se afastar do abusador e romper todo tipo de relação com ele é a única saída. É preciso se transformar numa parede, num muro, num monolito de mármore perfeitamente liso e impenetrável, sem nenhuma fresta, rachadura, fissura por onde ele possa entrar. Christine, porém, não se torna um monolito.

No final da história temos uma transformação milagrosa. Novamente sequestrada por Érik, Christine aceita se casar com ele para salvar Raoul. O Fantasma, pela primeira vez, beija alguém e a emoção é tão grande que ele começa a chorar. Cheia de compaixão Christine chora com ele e suas lágrimas se misturam. Esse ato de amor verdadeiro faz com ele a liberte. Na vida real, porém, isso não acontece. Supor que se é capaz de transformar um abusador perverso é uma estrada para o abismo.

No livro, o Fantasma morre pouco depois de abrir mão de Christine (como se ele não conseguisse existir sem ser perverso). No musical, porém, ele permanece vivo e acompanhando, à distância, os passos da amada.

Uma frase de Gaston Leroux nos mostra o destino de quem, como Christine, se deixa tragar por tudo que é superficial (de acordo com a interpretação mítica) ou por um relacionamento abusivo (no caso do segundo modo de ver a história). A partir do casamento com Raoul, o autor nos informa que “A terra nunca mais ouviria falar da sublime e misteriosa cantora”. Ela esqueceu de si mesma, de sua arte, de sua força. Portanto, seja qual for a perspectiva sob a qual analisarmos “O Fantasma da Ópera”, Christine é um modelo que não deve ser seguido.

 

Amor a gente faz acordado.

Perto de mim, na loja de colchões, um casal maduro conversava baixinho. Havia um quê de súplica na posição da mulher: mãos unidas em prece, olhos redondos cravados no companheiro, cabeça ligeiramente baixa enquanto parecia lhe perguntar algo que ele ouvia com estupefação. Percebi que eram casados há um bom tempo, pois as alianças estavam foscas e riscadas.

De novo, Stella? Lá estava eu mais uma vez colhendo nesgas da intimidade de estranhos e compondo uma história a partir dela. Sacudi a cabeça e resolvi cuidar da minha compra: molas ensacadas, firmeza ortopédica, viscoelástico transpirável, tratamento antimofo, 10 anos de garantia.

Eu já havia esquecido o tal casal quando, lá pelas tantas, ele passou bem ao meu lado, na saída da loja. Foi então que o marido soltou uma frase inteira no ar para que eu pegasse – o.k., não para que eu a pegasse, mas foi o que fiz. A frase era: “Primeiro a gente vê se continua dormindo junto ou não”. Ao ouvir isso, a esposa pareceu muito satisfeita e antes que eles entrassem no carro ele beijou a mão dela. Às turras ou às portas de uma separação definitivamente eles não estavam.

Supus que, à beira da compra de um colchão novo de casal, aquela mulher, cansada de mil noites insones, deve ter dito ao companheiro: “E se nós dormíssemos em quartos separados?”.

Me coloquei no lugar dela. Antes de dormir, eu gosto de ler, depois fazer uma oração e finalmente por para rodar alguma palestra que eu já tenha ouvido várias vezes da Lúcia Helena Galvão, do Artur Valadares ou do Haroldo Dutra Dias. Costumo me virar bastante na cama, uso cobertor até no verão, no inverno deixo o aquecedor ligado a noite toda e os vidros fechados, gosto que a luz da rua entre no quarto em boa quantidade, tenho sono leve e de manhã faço meia hora de alongamentos antes de me levantar. Convenhamos que seria um suplício para alguém com uma rotina diferente ter de dormir comigo e vice-versa. Imagine os desentendimentos, a irritação, os olhos empapuçados de sono, o cansaço que não passa. Uma tortura, não? Por que tantos casais se entregam de bom grado a essa tortura?

Por que não dormir em camas ou em quartos separados, mesmo que o segundo quarto seja uma transformação noturna da sala em dormitório? Essa pergunta é das mais difíceis de fazer quando um casal decide viver junto e, no entanto, deveria ser uma das primeiras. Por que se casar implica em obrigatoriamente dormir na mesma cama?

Minha amiga Cristina, por exemplo, ama dormir com o marido. Mas isso acontece porque eles têm um modo semelhante de se entregar por algumas horas ao deus Hipnos: no escuro total, de lado, um encaixado no outro, quase não se movem, ambos roncam, têm o sono pesado e adoram ar condicionado bem frio. Ótimo.  Mas e se o amor da sua vida tiver um jeito de dormir diferente do seu, como fica? Sabemos que é raro haver igualdade nas rotinas de sono: o mais frequente é a vontade de um imperar sobre a do outro.

A vida de um casal deveria ser conduzida pelas regras que ambos criassem em mútuo acordo, sem premissas do que é certo ou errado. É bom dormir junto? Durmamos. É ruim dormir junto? Mudemos!

Mas e o amor, alguém há de perguntar. Ora, abraços, beijos, sorrisos, carinhos, massagens, sexo, amor, tudo isso se faz acordado! Já o sono é algo que você não compartilha com mais ninguém: dormir é uma atividade particular, solitária, individual. É ignorância pensar que dois adultos se amam menos ou têm uma vida menos romântica apenas porque optaram por não dormir na mesma cama.

Eu desejo que todas as pessoas que dormem mal porque tentam se adaptar ao modo do companheiro ou da companheira possam, sem culpa, com calma, com amor, propor algumas soluções. E que a parte que está mais confortável na balança do sono, em vez de se irritar com a proposta de dormir em camas ou cômodos separados, fique feliz em proporcionar a quem ama um prazer a mais: o do descanso.

Eu e você somos um perigo para a paz mundial.

É comum ouvir por aí que iniciativas como o 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, são demagógicas e inúteis. O ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, explicou que um único dia de cessar-fogo e não-violência faz com que se possa, nas zonas de conflito, prestar assistência humanitária mais facilmente, como retirar civis dessas áreas, erguer abrigos, vacinar crianças, etc.

Aparentemente a questão da paz mundial é grande demais e escapa da nossa esfera de influência, mas a realidade é outra. Não tenho eu a pretensão de ser a emissária da paz com auréola de escritora politicamente correta, meu objetivo é outro: quero fazer com que você perceba o quanto você é violenta ou violento. Não olhe para os lados, estou falando com você, sim. Eu? Eu já sei que sou feroz – e tento não ser justamente porque sei que sou.

Impossível não haver violência em massa porque nós somos todos belicosos (com exceção a missionários obscuros espalhados pelo globo). Qualé, ainda ontem estávamos no Coliseu levantando polegares! Basta colocar o orgulho de lado para chegar a essa conclusão.

Amplifique sua fúria para com o vizinho que arranhou a porta do seu carro e você terá um perfeito George Bush. Você era contra a Guerra do Iraque, claro, mas não suporta que alguém te dê uma fechada no trânsito e, se puder, vai dar um jeito de ultrapassar o… o… quem é mesmo que está ali atrás daquela direção? O inimigo!

Como consequência de um povo belicoso temos uma cultura da truculência. As pessoas falam com orgulho que são do tipo que “não leva desaforo para casa”. Todas as vezes em que eu não levei desaforo para casa, levei outras coisas: remorso, gastrite, cabelos brancos, rugas, pesadelos, dores de cabeça, músculos tensos. Sem contar que dessa forma acrescentei novos problemas ao problema original.  Dar chilique em qualquer lugar que não seja sozinha-trancada-no-banheiro é ridículo, primata, patético. E mesmo sozinha-trancada-no-banheiro, ainda assim, eu contribuo para a pestilência vibracional do meu ser, da minha casa e do planeta.

Um desdobramento dessa cultura agressiva se vê claramente nas redes sociais. Parece uma ofensa particular alguém pensar diferente de nós. Parece que é uma declaração de guerra. Parece que estão marchando sobre o nosso gramado. Pra quê tantos dentes rilhados? Outro dia escrevi que discordar é uma arte que tem de ser sempre exercida com elegância e que concordar é uma arte que tem de ser sempre exercida sem lisonja. Desarmar nossas palavras talvez seja um início.

A verdade é que eu e você somos um perigo para a paz mundial. Lutar pela paz, portanto, começa por proteger os outros de nós.

 

Quando alguém realmente especial chega

Ah, os apelos… Os apelos de amor rasgados! Há algo mais inútil?

Quando alguém realmente especial chega, você não precisa pedir para que ele te dê uma chance: ele dá.

Você não precisa inventar peripécias para que ele te convide para sair: ele convida.

Você não precisa pedir para que ele entre na sua vida: ele entra.

Você não precisa pedir para andar de mãos dadas: ele não te deixa solta na rua como uma pipa no furacão.

Você não precisa avisar você é um tesouro: ele sabe.

Você não precisa insistir para que ele desabafe suas angústias: ele desabafa.

Você não precisa dar indiretas de que elogios são essenciais: ele te elogia.

Você não precisa insinuar que seria delicado se ele retirasse seu perfil do Tinder: ele retira.

Você não precisa colher sôfrega raspas e restos do chão: ele te dá tudo que é de vocês dois e ele se dá todo.

Você não precisa pedir que ele te beije sempre a boca e que durma abraçado em você e que deixe seus líquidos de amor secarem devagar pelas peles coladas: seus corpos se entendem muito antes da linguagem existir.

Você não precisa pedir para que ele te mostre seus segredos mais íntimos: ele se derrama todo em você. E com naturalidade.

Você não precisa implorar baixinho para que um dia, talvez, quem sabe, se possível, ele diga que te ama: palavras carinhosas escorrem em cascata pela boca, pelos olhos e sobretudo pelas atitudes dele.

Porque quando alguém realmente especial chega, você não precisa pedir mais nada.

(Este texto faz parte do meu livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia).

Se um homem é deserto não pare nele (ou Quem vive de migalha é pomba).

Ontem, ao sair de um prédio cuja calçada está sendo reformada, eu vi uma cena pavorosa: entre argamassa e cascalhos, três pombas famintas atacavam um montinho de terra. Não havia minhocas, milho, pão ou pequenas moscas ali, eu cheguei perto para olhar: as pombas estavam comendo terra!

Por que essa visão foi pavorosa para mim? Porque eu costumo dizer que, em matéria de relacionamentos amorosos, quem vive de migalha é pomba. Essa frase ajuda a manter o amor próprio, a enxergar nosso valor e a não aceitar o naco de miolo de pão que um homem deseje nos oferecer.

Pois é, mas as pombas já estão comendo terra! Será que o mundo romântico se tornou tão árido que as migalhas de outrora se transformaram no nosso ouro? Se um homem que te interessa não te elogia, não faz um agrado, sequer aparece, mas te manda uma mensagem toda semana para manter o contato ativo (leia-se em português claro: poder sair com você quando as opções a, b e c da agenda dele tiverem roído a corda), você deve fechar os olhos, engolir em seco e fingir que isso te sacia? Ou se ele aparece uma vez por mês para uma rapidinha (mesmo que não seja tão rapidinha assim), você deve fingir que o cheiro de homem que ele deixa nos seus lençóis – e que dura algumas horas, não mais – é suficiente?

Há uma canção do U2, “One“, cuja letra diz “você não me deu nada e agora isso é tudo o que tenho”. Quando eu me via nessa posição, de não receber nada além de migalhas e isso ter se transformado em tudo o que eu tinha, por mais que doesse (e doía um rio fedido de dor) eu preferia olhar no olho do demônio e fazer a mais horrenda das perguntas: “Afinal, você quer ou não ficar comigo pra valer?”

Não é fácil, não é agradável, mas é útil. Há homens que não querem ser amados, que não se interessam por você o bastante, que são gays, que têm medo (sim, senhora: isso não é lenda urbana) ou que já namoram – e se constrangem em admitir isso porque, nesse caso, posariam de completos canalhas.

Se um homem é deserto não pare nele.

Algumas pombas podem até comer terra para sobreviver, mas eu insisto no meu mantra: quem vive de migalha é pomba e, definitivamente, nós, mulheres, não gorjeamos.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu livro “Os Indecentes”, Editora Rocco.

Aplicativos de paquera: quem não escolher!

Parece óbvio, mas é preciso iluminar o óbvio: esta crônica, portanto, trata, sem poesia e direto na carne, de algumas obviedades sobre os aplicativos e sites de paquera.  Mais especificamente, como não usar, como não fazer, como não se mostrar e, sobretudo, quem não escolher nesses ambientes virtuais. Vamos lá?

  • A pessoa que diz estar ali para fazer amigos é quase sempre comprometida e usa em seu texto esse eufemismo mequetrefe (há quem afirme abertamente ter alguém: menos mal). Se homem casado é uma encrenca que você não procura, caia fora.
  • Fotos mostrando o dedo médio: o que significa isso? O tamanho do membro dele? Ou o nível da sua educação? Isso é sinal de ousadia? Ele que aprenda a ser ousado lendo a biografia do Gandhi!
  • O AA (Alcoólicos Anônimos) deveria inserir anúncios nesses ambientes de paquera virtual porque a quantidade de pessoas com copo na mão das formas mais deselegantes é absurda. Você quer alguém imaturo a ponto de se orgulhar das próprias bebedeiras?
  • Caso só haja fotos de viagens e paisagens em que ele aparece distante ou de costas ou fotos bem próximas de qualquer parte do corpo dele, esqueça esse perfil. Qual a razão para alguém não se mostrar claramente? Quem quer ver o close de uma íris ou de uma boca? Quem quer ver um pontinho na frente do Big Ben ou da torre Eiffel? Essa pessoa quer atrair você ou te enganar?
  • O cara tem filhos e os ama. O.k., mas um aplicativo de paquera não é lugar para expô-los. Pior ainda quando todas as fotos dele são com os filhos: será que há espaço para mais alguém na vida desse homem?
  • Me perdoe, mas terei de ser rude agora. Fotos sorrindo, beijando, fazendo sinal de positivo ou qualquer outra pose ao lado de animais selvagens obviamente dopados são ridículas e escrotas. Sabe “o horror, o horror” que Marlon Brando sussurra em Apocalypse Now? É o que eu sinto.
  • Não é conveniente se estender em longos textos de apresentação num perfil virtual; algumas linhas, porém, são bem-vindas, desde que não sejam clichês. Vamos ver alguns?

▪ “Curto as coisas boas da vida, aproveito cada minuto como se fosse o último: carpe diem!”. Ei, rapaz, que tal um pouco de foco? O que são coisas boas para você? Como exatamente você aproveita cada minuto: fumando crack ou lendo um livro?

▪ “A little less conversation, a little more action, please.” A canção de Elvis significa que ele quer um encontro com sexo e rápido. Não sei como uma mulher pode se interessar por alguém desse tipo, enfim, tem gosto pra tudo.

▪ “Quem se descreve, se limita”. Sem rodeios? Isso é desculpa de gente presunçosa, preguiçosa e incapaz. (Para entender por que essa frase é uma bobagem, leia a crônica “Escrever é um acerto de contas”.)

▪ “Sem mimimi”. Creio que uma tradução dessa frase neandertalesca dirá tudo que precisamos saber: “Eu sou um homem das cavernas, não aceito diálogo, uso violência de todo tipo e exijo que você faça sexo como eu quiser, quando eu quiser e onde eu quiser”.

  • Nem preciso dizer, mas digo: ameaças, discursos de ódio, listas do que ele detesta nem é fria, é uma Era Glacial inteira.
  • Há homens que dão vários de seus endereços virtuais: é como se eles dissessem “está tudo aqui, não me pergunte nada”. Ora, quem vai fazer uma pesquisa sobre a vida do gajo e avaliar cem páginas de publicações antes de dar sim ou não ou escrever uma mensagem de olá? Outra coisa: ninguém jogaria seu currículo na mão de estranhos – e, caso eles não tenham notado, nesses aplicativos o que mais tem é isso, estranhos.
  • Para fechar, falo sobre minhas fotos preferidas: as de língua de fora! Elas são excelentes para mostrar o estado de saúde do homem em questão. Uma língua suja, esbranquiçada, com talhos, bolinhas vermelhas ou colorações diferentes, só mostra uma coisa: o cara está podre por dentro – essa boca ninguém deve beijar mesmo!

Por fim, resta a questão fundamental: vale a pena se aventurar nesses aplicativos? Eles são seguros? Não há cafajestes, golpistas, malandros, estupradores, farsantes, abusadores de toda sorte? Não vou mentir: há, sim. Como também os há na fila do cinema, na faculdade, na casa dos amigos, no trabalho, no parque, nos templos religiosos, na vida, enfim. Entre a tentativa e a cautela, melhor ficar com as duas, juntas.

(Obs.: Este texto faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia.)

A Louca em você e as canções infantis

Há um movimento que pretende reescrever as canções de ninar a fim de tornar suas letras politicamente corretas. Dizem que essas canções possuem mensagens nefastas e que nossas crianças desenvolveriam ideais mais positivos sem sua influência. Peço aqui licença para uma interjeição: quá!

Limpar as canções infantis é como criar uma pessoa dentro de um ambiente controlado e perfeito: quando ela se deparar com os bois da cara preta da vida real, estará tão despreparada que isso será equivalente a levar um soco fatal. Tomemos como exemplo uma letra que supostamente destruiria a fé no amor romântico: “O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”. Quem vai se machucar mais na vida: uma menina que acredita que toda manifestação de afeto é pura e eterna ou uma que sabe que existe o amor verdadeiro e o amor de vidro?

Estão querendo dedetizar a cabeça das nossas crianças. O boi da cara preta, a cuca ou o bicho-papão causam muito mais fascínio do que medo. Por quê? Porque todos, incluindo crianças, têm seu lado bicho-papão e é saudável, para não dizer essencial, que ele seja aceito, incorporado à personalidade e transformado em poder criativo.

O livro “E a Louca tinha razão!”, de Linda S. Leonard, afirma que todos temos, dentro de nós, um louco e um juiz. O juiz é o censor, o que dita as regras e impõe limites; o louco é o responsável pela impulsividade, pelos atos criativos, pela intuição. Quando nossa Louca (figura arquetípica tão fundamental quanto a Juíza) se sente aceita e integrada, ela é preciosa, porém renegada às catacumbas do inconsciente é terrível arma de destruição. Diz o texto: “A raiva e outros sentimentos negados ou não reconhecidos, se forem separados do resto de nossas vidas, enchem a Louca de veneno que alimenta os atos destrutivos. (…) Para que possamos transformar essa energia furiosa numa força criativa e útil, precisamos primeiro examiná-la cuidadosamente em nós mesmos (…). Não podemos nem devemos simplesmente deixá-la de lado como anormal ou apenas louca”. Assino embaixo – assino e tatuo: uma das minhas tatuagens, não por acaso, é a frase “Para encontrar a Louca”.

Como a criança saudável que se nutre de bruxas e fadas, convide sua Louca para almoçar. Ela é doida, você sabe, mas é a única capaz de realizar na sua vida as revoluções pelas quais você há tanto tempo espera e precisa.

O que ela tem que eu não tenho?

Quando a nova namorada dele sentou bem ao meu lado no salão de beleza, eu me senti humilhada. O que ela tem que eu não tenho?

Ela nunca soube da minha existência. Está aí uma vantagem em não postar nada nos perfis pessoais da internet: ninguém sabe com quem eu fico ou deixo de ficar, em contrapartida eu vejo o que acontece na vida de quem me interessa. E ele me interessa. Por isso sei quem é ela e ela não sabe quem fui eu. Essa criatura conquistou em tempo recorde o posto de namorada que por um ano eu desejei. O que ela tem que eu não tenho?

Eu o convidei para ir ao cinema, o convidei para jantar, o convidei para ir ao parque, a shows, exposições, palestras… e nada. Ele só me encontrava para transar. O que ela tem que eu não tenho?

Para que ele saísse comigo (ou melhor, entrasse em mim), havia um roteiro que eu deveria encenar. Desde que já houvesse passado um mês do nosso último encontro, eu inventava alguma frase para iniciar a conversa, repetia uma dança de lugares-comuns e, por fim, perguntava se ele queria passar a noite comigo. Nunca foi fácil, nunca foi mais do que uma vez por mês e ele nunca realmente passou a noite comigo. Dormir era intimidade demais. Quando os passarinhos começavam a cantar, ele se vestia para ir embora. O que ela tem que eu não tenho?

Levei um susto quando vi as fotos do romance na internet. Ele nunca tirou uma foto comigo. De mim, já. Comigo nunca. Na tela estampavam-se para o mundo mais do que fotos: havia comentários de amigos, primos, sogra. Aquilo era namoro! A fim de ter uma confirmação positiva dos seus lábios, encenei a tal conversa mensal como se não suspeitasse de nada e, após a dança de sempre, quando o convidei a me ver, ele disse que adoraria, mas estava namorando. O que ela tem que eu não tenho?

Decidi ouvi-la. Fingi que prestava atenção na TV e fiquei ali, recolhendo dados a fim de matar minha dúvida: o que ela tem que eu não tenho?

Foi um suplício, mas até conversei com ela. Ao fim de quarenta minutos em que fizemos as unhas lado a lado, encontrei as respostas.

O que ela tem que eu não tenho? Burrice.

O que ela tem que eu não tenho?  Vulgaridade.

O que ela tem que eu não tenho? Arrogância.

O que ela tem que eu não tenho?  Tagarelice. Tagarelice. Tagarelice.

O que ela tem que eu não tenho? Insensatez.

O que ela tem que eu não tenho? Dependência.

O que ela tem que eu não tenho?  Possessividade.

O que ela tem que eu não tenho? Um homem que definitivamente não me merece.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu mais recente livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia

Numa estrela pode brilhar com o coração partido (uma crônica de amor rasgado)

Você nunca saberá que eu fiquei petrificada naquele banco à sua espera muito depois de você ter dito que não viria. Você nunca saberá da saudade com que eu te esperava e do destino dessa saudade agora sem porto.

Você nunca saberá que tenho esfregado minhas costas contra o asfalto selvagem na esperança de que asas brotem em meio à carne viva e me tirem daqui.

Você nunca saberá que não há ninguém no mundo que eu queira mais abraçar de novo do que você e que não há ninguém no mundo que eu tema mais abraçar de novo do que você.

Você nunca saberá da noite de desespero em que me sentei no chão, debaixo de uma tempestade gelada de raios e ventos, nunca saberá que a luz acabou, que um gerador gemia de vez em quando no fim do quarteirão com sua claridade verde espectral, que os raios brancos e tortos como veias me faziam ver que o mundo ainda estava lá, apesar de eu mesma duvidar de que estivesse, e de que ali, sob a chuva, por muito, muito tempo eu implorei a Deus para que tirasse você de dentro de mim.

Você nunca saberá que ouvir Hozier é uma faca com a qual eu voluntariamente me estripo todos os dias e que nessa faca está escrito seu nome.

Você nunca saberá que comprei uma árvore de arame e luz. E que agora retorço seus galhos tentando recriar a forma da árvore sob a qual nos beijamos a primeira vez.

Você nunca saberá que vi “Stardust” e em qual parte chorei. Nunca saberá que “sim, eu sei que o amor é incondicional; mas também sei que ele pode ser imprevisível, inesperado, incontrolável, insuportável”. Nunca saberá que, apesar de nenhuma estrela poder brilhar com o coração partido, eu estou fazendo o melhor que posso. Nunca saberá o quanto eu lamento por você e por todos os homens que não escolhem as mulheres-estrelas.

Você nunca saberá que antes de morrer, na última lufada que meu peito expelir, quando eu estiver definitivamente vazia de oxigênio, quando houver apenas uma vitalidade infinitesimal no meu corpo sem ar, será em você que eu irei pensar, será por você que eu condensarei minha última umidade humana e derramarei a última lágrima quente.

Você nunca saberá que continuarei a te procurar debaixo da terra fria. E que meus cabelos crescerão como raízes e seguirão crescendo século após século, até te encontrar de novo. E quando isso acontecer, meus fios cansados sentirão os seus cabelos famintos em busca de outra mulher. Você nunca saberá, mas vai continuar a me ferir e a me abandonar e a me assombrar para todo, todo o sempre.

(Não deixe de ver o vídeo: há uma mensagem fundamental nele).

Uma fórmula diferente para o ano novo

Agora você pode parar de fingir. Aqui não é o Facebook ou o Instagram, não é seu escritório, não é a festa de família em que primos se veem apenas uma vez por ano, não são seus amigos sociais: aqui é sua escritora favorita (ao menos, a favorita de hoje) e comigo você pode respirar.

Escritores, quando têm alguma decência, fazem isso: através do seu trabalho, ficcional ou não, descerram a realidade, te aproximam dela, te aproximam de você, às vezes suavemente, às vezes num susto.

A crônica de hoje é para quem está preso num sarcófago que o isola de si mesmo e, por consequência, da vida abundante que existe, dentro e fora. Em medidas diferentes, todos nós estamos nesse sarcófago, uns mais, outros menos. Portanto, repito: aqui você pode parar de fingir.

E, para isso, eu tenho uma fórmula de presente. Sim, uma fórmula, uma simpatia, uma provocação, chame-a como quiser. Vamos lá?

Você vai baixar, alugar, emprestar ou comprar a trilogia de “O Poderoso Chefão”. É fundamental que você veja os três filmes em sequencia e em silêncio. Se puder fazer isso de madrugada e sem ninguém por perto, melhor ainda.

É provável que você já tenha visto um ou todos os filmes, mas dessa vez você os assistirá com um olhar diferente: você irá prestar atenção não nos crimes, não na brutalidade, não nas traições, você irá ver apenas a contenção de Michael Corleone. Sua brutal contenção. E vai perceber que todos nós, em medidas diferentes, somos como ele, o homem que dois minutos antes de sofrer um infarto (na verdade é uma crise de diabetes, mas parece um infarto) sussurra ao seu sobrinho: “Nunca deixe ninguém saber o que você está pensando”. Pois é. Estamos todos fazendo um ótimo trabalho, não? Estamos seguindo as lições do mafioso: ninguém sabe o que pensamos. Nem nós mesmos.

No silêncio que desperta, você chegará ao fim da trilogia. Chegará até o momento em que Michael Corleone, com um acúmulo de dores graúdas (dores engendradas por ele mesmo), finalmente, dá um grito. Um único, absoluto e profundo grito de desespero.

Tome fôlego e grite como ele. Grite, escreva, fale, se ajoelhe, ligue, aceite, vá, volte, peça, impeça, implore, diga, procure, perdoe, ouse se abrir…  Talvez do outro lado haja alguém esperando por esse seu grito para gritar também e, a partir daí, construir uma nova tessitura nas relações do dia a dia. De alguma forma, grite! Por favor, não espere tanto quanto Michael Corleone.