Amores difíceis

Acabo de topar com uma das mais assustadoras realidades do mundo romântico. Sempre que a vejo se imiscuir entre meus amigos de forma tão acachapante meu queixo cai. Que realidade é essa? Explico.

Quando uma pessoa é sua loucura de estimação, ela pode fazer e dizer rigorosamente tudo que quiser que você vai aceitar e ainda ficar feliz por ela te brindar com alguma atenção. Ela pode te trair, pode rir da sua libido, questionar sua maturidade, implicar com sua mãe ou sua filha, ver defeito em tudo que você faz (inclusive em tudo que você faz por ela), pode transformar sua vida numa corrida de obstáculos que, ainda assim, você continuará com ela.

No caminho de um romance, posso compreender uma ou outra dificuldade, uma parada nos boxes, um instante de dúvida, um acerto de peças que desencaixam. Mas eu não me refiro a movimentos compreensíveis dentro de um relacionamento romântico vivo. Eu falo de humilhação, senhoras e senhores, eu falo de gente que se entrega a encrencas consumadas – e permanece com elas, mesmo sob as condições mais absurdas.

Aqui está, bebericando café na minha sala, uma amiga a desenrolar o novelo infinito da saga com sua loucura de estimação: um novelo sem ponta, destinado a um eterno retorno ao caos. Eu já vi esse filme: agora ela está babando felicidade pela noite de ontem. E vai continuar babando até levar a próxima invertida. Então ela irá percorrer algumas semanas de dor, lamber o soalho em que ele cuspiu, aceitar as migalhas que ele lhe jogar, pedir desculpas pelo que disse e pelo que talvez tenha deixado de dizer. Finalmente, ela entrará numa espera aflita pela próxima noite de arrebatamento. Antes que essa noite chegue, haverá brigas, frases humilhantes, silêncios ruins.

Eu não acredito em amores difíceis. Luta e amor, para mim, são palavras que não deveriam estar na mesma frase. Se a luta é causada pelo meu parceiro, se ela não é externa e involuntária, eu a repudio. Meu amor não é incondicional e penso que o de nenhuma mulher por nenhum homem deveria ser, o de nenhum ser humano por outro ser humano deveria ser. Se o amor do outro (ou o que ele chama de amor) te fere, te destroça, te humilha, está claro que um limite foi ultrapassado. E tem, sempre, de haver um limite.

Obs.: Esta crônica faz parte do livro “Loucura de Estimação” pela egaláxia.

 

Como usar a palavra “literalmente” de modo correto

De tempos em tempos, algum vício de linguagem, erro de português ou uma invenção inútil se espalha pelo Brasil como fogo em campo ressequido.

Recentemente tivemos a ditadura do “a nível de” e o despropósito do “vou estar fazendo”. Agora estamos mergulhados até o pescoço no uso equivocado do “literalmente”.

Curioso que essas formas esdrúxulas tenham se popularizado pela mesma razão: vaidade. Um ortopedista acha mais imponente dizer “o atleta não tem nenhuma lesão a nível de joelho” do que simplificar “ele não tem lesão no joelho”. A operadora de telemarketing acha mais chique dizer “vou estar transferindo sua ligação” em vez de um simples e correto “vou transferir sua ligação”. Numa tentativa de parecer mais culto, todo mundo se tornou mais estúpido.

Já o “literalmente” não me parece fruto de vaidade: é apenas um engano. Literalmente significa ao pé da letra. Ele não é sinônimo de realmente, não confere ênfase a uma ideia e não pode ser usado como uma espécie de exclamação. Mais fácil dar exemplos, não é?

“Ele saiu literalmente do armário!”. Para alguém sair literalmente do armário, ele precisaria estar dentro de um armário de verdade, abrir a porta (supondo que a porta abra por dentro), colocar um pé para fora, depois outro e sair com seu corpinho inteiro do tal armário.

“Eu estou literalmente morta de cansaço!”. E como é que você está falando?  Chamaram um médium?

“Eu viajei literalmente na maionese!”. Não, não viajou. Nem chefe de cozinha viaja literalmente na maionese – a não ser que o apelido do carro dele ou dela seja maionese. Você conseguiria confeccionar uma moto, uma carroça, um riquixá que seja de maionese para viajar nele?

“Esse homem me deixou literalmente louca!”. Opa, essa pessoa precisa correr ao psiquiatra para internação de emergência – e dá-lhe benzodiazepínicos e outros que tais na veia!

“Ele literalmente faz milagres!”. Estamos falando de Jesus Cristo?

“Essa menina é literalmente um doce!”. “Menina” é a marca de um biscoito de chocolate? De um doce de caramelo? De uma bala de mel? Não? Então a menina não é literalmente um doce.

“Ele literalmente roubou meu coração”. Gente, como essa criatura está andando por aí sem coração? Chama o SAMU, isso é caso para transplante urgente!

“Nossa, isso é literalmente um mico!”. Se estivermos no zoológico, na Mata Atlântica, na Amazônia, em Bonito diante de um macaco pequenino, tudo bem. Caso contrário…

“Minha namorada me leva na coleira literalmente!”. Rapaz, sua namorada é dominatrix? E te leva aonde te puxando pela coleira?

“Você tem de pensar literalmente fora da caixinha”.  Que caixinha, cara-pálida? Só se for a craniana! A única maneira de seguir esse conselho é ser um zumbi com os miolos de fora.

“Caí literalmente na folia!”. Levou um tombo no baile de carnaval? Que dó.

“O sorriso dela literalmente aquece meu peito!”. Como? Ela esquenta os dentes com bolsa térmica e encosta no seu peito a boca escancarada?

Portanto, fica a dica: se você estiver saindo com um homem e ele, à beira da cama, disser “quero te comer literalmente”, torça para que ele seja apenas um dos muitos que fazem confusão com o termo, e não um confrade do doutor Hannibal Lecter.

 

Uma carta de desamor (Porcos não reconhecem pérolas)

Há algum tempo, condoída pelo fora que uma amiga levara, escrevi um texto de presente para ela: uma carta de desamor.

Na época, fez bem a ela ter a experiência materializada em texto: texto que poderia ser entregue ao dito cujo (e foi), texto que poderia ser impresso e simbolicamente queimado (e foi), texto que poderia fazê-la erguer a cabeça e a autoestima (e fez).

Se ele ajudou uma mulher, pode ajudar duas, três… Acrescente o que você quiser ao miolo dessa carta e torne-a sua: o final (um dos meus mantras preferidos) é o que realmente importa.

***

Me desculpe por eu ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter almoçado com você tantas vezes. Me desculpe por ter ligado.

Me desculpe pela chuva que tomamos subindo a Augusta. Me desculpe por ter acreditado nas suas mensagens. Me desculpe por ter rido das suas piadas.

Me desculpe pelos machucados que sua ex deixou em você. Me desculpe por eu ter vindo logo depois dela. Me desculpe por tentar entender seu silêncio.

Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe por eu ter subestimado o que foi ruim e superestimado o que foi bom.

Me desculpe por eu não ter usado máscara. Me desculpe por querer mais. Me desculpe por supor que você também quisesse mais.

Me desculpe por ter dito “sim”. Me desculpe por eu confiado em você. Me desculpe pela cinta-liga que eu comprei para te agradar.

Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonito. Me desculpe por, em algum momento, eu ter acreditado que você era o homem da minha vida.

Me desculpe pelos seus erros de português. Me desculpe pelos erros de português da sua nova namorada. Me desculpe por a sua nova namorada achar que margaridas são flores menos nobres.

Me desculpe pelos 130 quilômetros de congestionamento que eu atravessei para te ver. Me desculpe pela barata que eu tive de matar na sua cozinha. Me desculpe por eu ter permitido que você deixasse a TV ligada no jogo do Palmeiras enquanto nós transávamos.

Me desculpe por eu ter acreditado que você compreendia meu olhar. Me desculpe por eu ter dito coisas lindas para você. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu disse.

Mas, sobretudo, me desculpe por pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você: são para mim. Afinal, porcos não reconhecem pérolas.

 

Qual a maneira mais rápida de acabar com seu relacionamento?

Qual a maneira mais rápida de acabar com o que seu relacionamento tem de bom? Fácil: aja como se fosse mãe do seu homem. Nós, mulheres, estamos afogando nossas relações românticas nesse poço. Temos a péssima tendência de tratar nossos homens como filhos que precisam ser educados, modificados, alertados a cada passo fora da curva. Desse modo nos tornamos criaturas chatas, ranzinzas, castradoras, controladoras, insuportáveis.

Sim, é papel da mãe, em certa medida, ser a chata da história: a que pede mil vezes para o filho escovar os dentes, a que fica no pé para que ele faça a lição de casa, a que ensina de novo e de novo que não se come com a boca aberta. Mas namoradas, esposas, companheiras – me desculpe pela constatação óbvia –, não são mães dos seus homens.

Duas cenas aparentemente desconectadas me chamaram a atenção para isso. Na primeira, estava eu numa pequena reunião com amigos e a namorada de um deles, com o cenho carregado, vira e mexe cochichava algo em seu ouvido, ao que ele respondia contrafeito, também em voz baixa. Na quinta ou sexta vez eu ouvi o conteúdo do cochicho: ela chamava sua atenção quanto ao modo como ele havia cortado o porco, fazendo com que as fatias se esgarçassem em tiras compridas. Bem, o porco estava uma delícia e a mim pouco importava que ele viesse em tiras ou em fatias para o meu prato, mas a moça parecia cheia de razão em sua intransigência. Mais para frente, após um novo cochicho sobre sabe-se lá qual detalhe, o namorado respondeu alto o bastante para que todos ouvíssemos: “Para de me censurar: que coisa chata!”. Chata ficou a noite mergulhada naquela atmosfera baixo astral.

Outra cena. Ontem, atravessando a rua, desviei de uma moto que ocupava metade da faixa de pedestres. Pude ouvir uma moça na garupa dizer ao homem que dirigia: “Não para em cima da faixa!” e ele responder “Não dava pra parar em outro lugar!”. De fato, ele tinha razão. Quando o sinal fechou sua moto e um ônibus estavam emparelhados subindo a rua de mão dupla. O ônibus parou e o único espaço que sobrou para que a moto não ficasse no contrafluxo foi a faixa de pedestres. Ele não deveria ter emparelhado com o ônibus, é verdade, mas naquele contexto o único lugar seguro era onde ele parou. Aposto que aquela mulher na garupa não era irmã do homem ou sua amiga, ali estava um belo espécime de namorada-mãe ou esposa-mãe.

E lá vamos nós de novo para a terra do óbvio: namorado ou marido é homem, não filho!

E antes que me cobrem, já adianto que existe a variação masculina desse monstrengo, é claro: o namorado-pai ou o marido-pai, chato, ranzinza, castrador, controlador, insuportável.

Verdade que em relacionamentos longos há momentos em que o homem pode passar por uma doença, um revés financeiro, um luto, e precise de um apoio mais consistente da sua parceira, pode-se até dizer um apoio materno, mas esses períodos são temporários e mesmo assim deve-se dosar esse cuidado de acordo com a necessidade real, não com o impulso de cuidar. Além de mais, ser mãe do seu homem é muito cansativo, exige um nível hercúleo de atenção e tarefas a cumprir. Não faça isso, não. Ele dá conta de cuidar de si mesmo, você não precisa nem deve infantilizá-lo.  Se você deseja um homem na sua vida, não um filho, simplesmente não aja como mãe dele.

O que um homem faz na cama com você, ele fará também fora dela.

do livro “Os Indecentes – crônicas sobre amor e sexo” por Stella Florence

O que um homem faz na cama com você, ele fará também fora dela.

Se ele insiste em pedir a você uma segunda mulher na cama, ele já tem (ou em breve terá) uma segunda mulher fora dela.

Se ele não deixa você mudar de posição quando você quer gozar, ele cortará suas possibilidades de gozo na vida.

Se ele sente prazer em te machucar na cama sem que você deseje isso, ele procurará maneiras de te machucar na vida.

Se ele toma banho imediatamente após transar com você, ele irá se livrar de qualquer vestígio seu fora da cama também.

Se ele reage mal quando você o acorda de madrugada para transar, ele reagirá mal quando você o acordar de madrugada frágil por conta de um pesadelo.

Se ele não fala bobagens e ri dessas mesmas bobagens enquanto se esfrega em você noite adentro, ele será rígido, sem humor e sem entrega na vida também.

Se ele insiste para que você goze apenas porque isso lhe conferirá o status de macho provedor de orgasmos, ele te dará aparente companheirismo na vida apenas para que o seu cartão de visitas social não seja arranhado.

Se ele só vê os desejos dele na cama, só verá os desejos dele na vida.

Se ele é inseguro e pede licença para enfiar a mão entre suas pernas – já sendo seu homem –, ele será um poço de insegurança em tudo o mais.

Se ele tenta te convencer a tirar a camisinha sem te oferecer fidelidade e exames de sangue, ele tentará fazer com que todas as suas proteções na vida caiam a fim de você fique em risco também.

Se ele não te beija na boca durante o sexo, não vai te beijar no elevador, muito menos no meio do estacionamento vazio e menos ainda sob a chuva (ou na fazenda ou numa casinha de sapé, etc., etc., etc.).

Se ele duvida do seu gozo, irá duvidar de tudo o mais sobre você.

Se ele vive te comparando a outras mulheres, outras que faziam gostoso todas as aberrações que você se recusa a fazer, se ele traz o espectro dessas outras para a sua cama, ele irá seguir te humilhando vida afora sempre que tiver uma oportunidade.

Eu citei apenas alguns dos cenários torpes que mulheres (e homens) encontram nesta Babilônia romântica em que vivemos, e é claro que existem os bons cenários e até mesmo os maravilhosos. Porém, contra esses, não há necessidade de se prevenir.

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado.

 

Numa relação abusiva há dois responsáveis e um culpado. Quando o abuso degenera em crime, porém, a responsabilidade de uma das partes desaparece: naquele momento, impotente diante da violência extrema, ela deixa de ser coparticipante para se tornar vítima. No entanto, no dia seguinte, a responsabilidade volta a ser dela – e a capacidade de mudar seu destino também. (Trecho da crônica “Estupro numa relação abusiva” publicada originalmente no livro “Os Indecentes” e atualizada por mim para o portal Exnap.

Tesouro

Loucura 30

Encontro fios de cabelo comprido no banheiro dele. Eu tenho cabelos curtos, como qualquer um pode ver. Brinco que a faxineira dele anda desleixada (leia-se “eu percebi sua falta de cuidado em esconder uma possível transa fortuita, baby”) e esqueço o assunto. Escolho esquecer porque realmente acredito que pode ter sido uma noite desimportante, fruto de uma pequena crise que tivemos ou, num cenário mais otimista, os fios poderiam pertencer a uma visita, a uma irmã, a uma amiga (alguns homens têm amigas com quem nunca transaram – como os meus amigos, por exemplo).

No entanto, ontem ele me leva para jantar e beija a palma da minha mão (sinto um frio na espinha: ele nunca fez isso), diz que eu sou incrível (lá vem algo ruim), que ele me adora (certamente vem algo muito ruim), que eu faço bem pra ele (me preparo para o baque), que me quer na vida dele para sempre seja de que modo for (seja de que modo for?) e que, sim, aqueles fios de cabelo eram de outra mulher com quem ele tem saído (ah, chegamos ao ponto).

Então enquanto eu me afogava de desejo, sozinha em casa, havia alguém com ele. Certo. Então ele me acha tão incrível que está saindo com outra. Perfeito. Se me achar um pouco mais incrível, a seguir ele puxará minha saia para limpar o cocô do cachorro sarnento no qual ele inadvertidamente pisou ali na esquina. E se me achar ainda mais incrível, não restará outra coisa a fazer, de acordo com esse raciocínio, a não ser me dar um tiro à queima-roupa.

Voltemos ao jantar. Fui civilizada, como sempre. Há algo mais inútil do que chiliques ou lágrimas? Eu não grito, não xingo, não brigo, não dou escândalos, não incorporo a fúria de mulher traída, apenas aceito as coisas como são e desapareço. E essa aceitação doída, porém resignada, essa imediata ação de sumir tem em mim um efeito de alvejante, de ácido: depois que passa a tristeza imensa, imensa, não resta mais nada. Algo ali se quebra, se esteriliza e é irrecuperável.

Eu me recuso a manter mágoa ou dor ou carinho ou compaixão por alguém que não percebeu que tinha um tesouro nas mãos. Um tesouro não se autoproclama: ele é. Aproveita o tesouro quem tem inteligência e sensibilidade: quem não tem, volta, cedo ou tarde, à sua própria miséria.

Loucura 9

Loucura de Estimação: vídeo do lançamento na Martins Fontes

Eu e o portal  Exnap estivemos no Sarau Conversar, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo), dia 24/04/2018, falando sobre amor, recomeços e o lançamento do “Loucura de Estimação”, pela E-Galáxia. Aqui está uma edição da minha fala nessa noite especialíssima. Veja as fotos do evento, pela incrível Kriz Knack, lá na minha fanpage. Vem!

Veja um tutorial para baixar o livro:

No amor e no sexo, você sabe receber?

Você compra as comidinhas preferidas do seu homem, troca os lençóis e as toalhas, encomenda o livro que ele estava procurando, marca o retorno dele no cardiologista, encontra um encanador para consertar o vazamento no escritório, escolhe dois filmes e uma série na Netflix para rechear o fim de semana, veste aquela calcinha que o excita e acende o incenso que ele aprecia. Embora esteja tudo aparentemente bem, algo não se encaixa. Você compensa esse estranhamento postando fotos românticas nas redes sociais: a cada like você tenta afogar aquela sensação ruim, no entanto, como grãos de areia escorrendo inexoravelmente por uma ampulheta, ela se torna cada vez mais incômoda. O desencaixe passa a desassossego que se transforma em irritação e por fim em desespero. Então, um dia (em mais um desses dias comuns nos quais você tão bem se amordaça), seu homem diz que está indo embora – e você, como a vítima que supõe ser, rebenta de dor.

O que ele fez de errado ou deixou de fazer não me importa, eu não estou falando com ele – estou falando com você e é pra você que eu proponho uma reflexão: será que, sem perceber, com a melhor das intenções, você não acabou sabotando seu relacionamento? E pior: se sobrecarregando no processo?

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Sim, é sabotagem se tornar mãe do seu homem – ele é perfeitamente capaz de marcar suas próprias consultas médicas, encontrar encanadores, compras seus livros e cuecas. Boicote claríssimo é dar, dar, dar sem deixar espaço para receber, sem ensinar o outro a te dar também. Ele não se sentia mais capaz de te ajudar em nada, não se via como gerador de novas experiências, parceiro nas dificuldades, amante de arroubos não programados, necessário. Diante de uma mulher que dá tudo e que não parecia precisar de nada, ele se sentiu impotente como uma criança, como um filho – e filhos sempre vão embora.

Quando alguém te dá uma colherada de creme de avelã e você fecha a boca, trinca os dentes, faz que não com a cabeça, ele não te oferece mais. No entanto, se você sorrir, botar a língua ansiosa para fora, comer tudo, beijá-lo toda melada de alegria, ele perceberá quão prazeroso é dar – e, sobretudo, o quanto você está aberta para receber.

Portanto, quando um novo amor chegar (porque todo deserto tem borda, fronteira, fim), elimine dois hábitos perniciosos da sua vida (aliás, elimine-os já): rejeição aos elogios e a triste frase “não precisa”.

Quando ele propuser cruzar a cidade para te pegar em casa em vez de vocês se encontrarem na porta do teatro, quando ele te oferecer uma massagem ou ajuda para guardar as compras nas prateleiras mais altas não diga “não precisa”, porque a verdade é que precisa, sim, e você adora o carinho dele, sim, e você quer a parceria dele, sim. Que tal aprenda a receber?

E quando ele disser que você está ainda mais linda aquela noite, que ele adora conversar com você, que você é a mulher mais gostosa do universo, nem pense em responder com os olhinhos baixos “imagina” ou “que é isso” ou ainda “ah, exagerado”. Simplesmente receba! Se refestele nos elogios, se lambuze neles, ensine-o que palavras como essas acendem o seu corpo. Mais tarde, quando ele fizer um longo sexo oral em você, não fique ansiosa para retribuir: relaxe e permita que ele tenha prazer em te dar prazer.

O meu desejo é que a partir de agora, no amor e no sexo, você receba tudo, tudo o que merece – sem culpa e sem sabotagem.

Prece (do livro “Loucura de Estimação”)

 

Senhor, daqui do fundo onde estou, nesse abismo onde só as migalhas chegam, migalhas sobre as quais me lanço como um chacal enlouquecido, eu, que já estou de joelhos, uso um resto de lucidez para chorar esta prece.

Pai, me impeça de me alimentar dos restos dos banquetes que não foram feitos em minha homenagem.

Não permita que eu esfregue minha língua no musgo amargo que cresce na soleira da porta dele.

Endureça meus joelhos, para que eu não me curve até lamber o chão em que ele pisa.

Rompa meus tímpanos, para que eu não me agarre a essa ou àquela palavra banal e a transforme em declaração de amor na minha alma faminta. Se eu ouvir qualquer coisa, Pai, eu vou acreditar que é amor, então, por misericórdia, me ensurdeça.

Quebra meus dentes para que eu não seja capaz de roer as paredes nas quais as mãos dele descansaram distraídas.

Me ensina a parar de rastejar, Senhor, a parar de me adaptar ao inaceitável, a parar de sorrir enquanto o punhal se acolchoa na minha carne.

Levanta meus olhos para além da existência desse homem-prisão.

Quando ele me der pouco, quando ele me olhar com pena, quando ele se mostrar evasivo, quando ele for violento, quando ele me espancar com seu silêncio, com suas palavras, com suas mãos, me ampare, me fortaleça, me ajude, Pai, de uma vez por todas, a ir embora.

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