Eu e você somos um perigo para a paz mundial.

É comum ouvir por aí que iniciativas como o 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, são demagógicas e inúteis. O ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, explicou que um único dia de cessar-fogo e não-violência faz com que se possa, nas zonas de conflito, prestar assistência humanitária mais facilmente, como retirar civis dessas áreas, erguer abrigos, vacinar crianças, etc.

Aparentemente a questão da paz mundial é grande demais e escapa da nossa esfera de influência, mas a realidade é outra. Não tenho eu a pretensão de ser a emissária da paz com auréola de escritora politicamente correta, meu objetivo é outro: quero fazer com que você perceba o quanto você é violenta ou violento. Não olhe para os lados, estou falando com você, sim. Eu? Eu já sei que sou feroz – e tento não ser justamente porque sei que sou.

Impossível não haver violência em massa porque nós somos todos belicosos (com exceção a missionários obscuros espalhados pelo globo). Qualé, ainda ontem estávamos no Coliseu levantando polegares! Basta colocar o orgulho de lado para chegar a essa conclusão.

Amplifique sua fúria para com o vizinho que arranhou a porta do seu carro e você terá um perfeito George Bush. Você era contra a Guerra do Iraque, claro, mas não suporta que alguém te dê uma fechada no trânsito e, se puder, vai dar um jeito de ultrapassar o… o… quem é mesmo que está ali atrás daquela direção? O inimigo!

Como consequência de um povo belicoso temos uma cultura da truculência. As pessoas falam com orgulho que são do tipo que “não leva desaforo para casa”. Todas as vezes em que eu não levei desaforo para casa, levei outras coisas: remorso, gastrite, cabelos brancos, rugas, pesadelos, dores de cabeça, músculos tensos. Sem contar que dessa forma acrescentei novos problemas ao problema original.  Dar chilique em qualquer lugar que não seja sozinha-trancada-no-banheiro é ridículo, primata, patético. E mesmo sozinha-trancada-no-banheiro, ainda assim, eu contribuo para a pestilência vibracional do meu ser, da minha casa e do planeta.

Um desdobramento dessa cultura agressiva se vê claramente nas redes sociais. Parece uma ofensa particular alguém pensar diferente de nós. Parece que é uma declaração de guerra. Parece que estão marchando sobre o nosso gramado. Pra quê tantos dentes rilhados? Outro dia escrevi que discordar é uma arte que tem de ser sempre exercida com elegância e que concordar é uma arte que tem de ser sempre exercida sem lisonja. Desarmar nossas palavras talvez seja um início.

A verdade é que eu e você somos um perigo para a paz mundial. Lutar pela paz, portanto, começa por proteger os outros de nós.

 

Os chatos têm salvação.

Os chatos têm salvação. Sabe aquela pessoa chatíssima, sem noção, espaçosa, pentelha? Pois ela pode se tornar uma pessoa bem legal, eu juro. Mais do que jurar: eu provo!

Quando trabalhei por dez anos como secretária, eu abusava do perfume a ponto de sufocar quem compartilhasse um elevador comigo. Hoje apenas quem me abraça consegue sentir uma leve nota de Fahrenheit. Os chatos têm conserto!

Eu fumava num espaço pequeno sem me importar com quem estivesse ao lado; hoje, além de ter parado de fumar, fujo de qualquer cigarro, cachimbo, charuto, narguile e até incenso. Não enxoto de casa os amigos que fumam, porém, discretamente, abro as janelas para que sua pestilência não incomode ninguém. Que diferença de quando eu era fumante!

Dos meus 16 até os 20, 21 anos, eu inventava namorados e situações que nunca existiram e seria catalogada como um caso patológico se a ficção não houvesse me salvado: hoje inventar é minha profissão. Certo dia, na faculdade, uma colega me chamou de mal-amada e naquele momento, em vez de mais uma vez evitar a realidade, eu simplesmente concordei com ela. Sim, eu disse:  “Sou mesmo muito mal-amada, caso contrário não estaria aqui nessa briga inútil com você!”. Mentir para os outros é chato, para si mesmo é patético. Mas os chatos têm salvação – e os patéticos também.

Eu costumava mandar cartas ácidas para emissoras de TV cujos programas não me agradavam, até que Rosana Hermann me deu a melhor lição sobre o assunto: falar mal é dar ibope, se você não gosta de algo, ignore. É claro! Toda vez que você compartilha ou comenta algo em um post desagradável você apenas concorre para viralizar esse mesmo post. Outros podem gostar da publicação que você detestou – e esses outros só a conhecerão porque você ajudou a divulgá-la. Ou a gente para de ser chata ou vira jornalista, escritora, crítica e faz isso profissionalmente, arcando com as consequências das opiniões. Uma chatice, nesse caso, ganha responsabilidade e se torna útil à reflexão coletiva. Viu? Há salvação para os chatos!

Se você, por um instante ou dois, refletir sem vaidade, vai concordar comigo. Afinal você nunca foi a chata de alguém? Nunca reconheceu no rosto do seu interlocutor uma sobrancelha erguida ou um suspiro fundo de aborrecimento? Há quem não note a própria chatice, é verdade, o caso então se torna mais sério: sinal de que a pessoa nunca olhou de fato para si e para o seu semelhante. Bem mais grave que ser um chato de galochas, é nunca ter percebido isso.

Quando alguém realmente especial chega

Ah, os apelos… Os apelos de amor rasgados! Há algo mais inútil?

Quando alguém realmente especial chega, você não precisa pedir para que ele te dê uma chance: ele dá.

Você não precisa inventar peripécias para que ele te convide para sair: ele convida.

Você não precisa pedir para que ele entre na sua vida: ele entra.

Você não precisa pedir para andar de mãos dadas: ele não te deixa solta na rua como uma pipa no furacão.

Você não precisa avisar você é um tesouro: ele sabe.

Você não precisa insistir para que ele desabafe suas angústias: ele desabafa.

Você não precisa dar indiretas de que elogios são essenciais: ele te elogia.

Você não precisa insinuar que seria delicado se ele retirasse seu perfil do Tinder: ele retira.

Você não precisa colher sôfrega raspas e restos do chão: ele te dá tudo que é de vocês dois e ele se dá todo.

Você não precisa pedir que ele te beije sempre a boca e que durma abraçado em você e que deixe seus líquidos de amor secarem devagar pelas peles coladas: seus corpos se entendem muito antes da linguagem existir.

Você não precisa pedir para que ele te mostre seus segredos mais íntimos: ele se derrama todo em você. E com naturalidade.

Você não precisa implorar baixinho para que um dia, talvez, quem sabe, se possível, ele diga que te ama: palavras carinhosas escorrem em cascata pela boca, pelos olhos e sobretudo pelas atitudes dele.

Porque quando alguém realmente especial chega, você não precisa pedir mais nada.

(Este texto faz parte do meu livro “Loucura de Estimação” pela e-galáxia).

O Fantasma da Ópera: duas interpretações fascinantes.

Não há dúvida de que “O Fantasma da Ópera” é um fenômeno, mas por que essa história nos atrai tanto?  Por que, muito antes do musical de Andrew Lloyd Weber, nós já nos debruçávamos estranhamente absortos sobre o livro de Gaston Leroux, de 1910 (um livro que, do ponto de vista literário, não chega aos pés dos grandes romances do século XX)?

Em toscas pinceladas, o livro (e o musical) trata de Christine, uma jovem soprano que se divide entre seu misterioso professor de música (Érik, o Fantasma da Ópera) e seu belo amor de infância (Raoul, o Visconde de Chagny).  Estamos então a falar de um banal triângulo amoroso? De modo algum.

A trama nos leva a duas interpretações diferentes e igualmente fascinantes.

A primeira razão para que “O Fantasma da Ópera” seja tão atraente, a maior, a mais profunda, a mais universal é que Christine, o Fantasma e Raoul, os três, estão dentro de cada um de nós. A história é um mito moderno, um símbolo de como se definem as decisões no fundo das nossas almas. O Fantasma simboliza nossa força criativa, nossa vida interior, nossos desejos mais íntimos e vitais, muitas vezes considerados loucos pela sociedade; Érik habita o nosso inconsciente (não à toa ele vive nos subterrâneos do teatro). Já Raoul é a vida exterior, que acontece sobre o palco, à vista de todos, é se encaixar nos padrões da sua cultura e do seu tempo, é fazer tudo conforme esperam de você, sem espaço para dúvida, desafio, mudança.

Portanto, se escolhermos Raoul e a vida de superfície, teremos um perfil no Instagram cheio de curtidas, uma vida exterior invejável, uma família tradicional, muitos ternos e vestidos no armário, mas seremos secos, vulgares, ocos. Já se escolhermos o Fantasma, seremos provavelmente chamados de loucos, mas faremos aquilo que fomos talhados para fazer, aquilo que nossa alma realmente deseja. Quando tentamos silenciar o Fantasma, quando não o aceitamos, não o incorporamos de algum modo à luz da ribalta, ele se torna agressivo, destruidor, se transforma em sintoma, doença, fobia, e nada diminuirá sua fúria, nem mesmo uma dezena de psicotrópicos.

Desse modo fica claro que o que parece ser um triângulo amoroso é, na verdade, a dúvida que enfrentamos cada vez que temos de fazer uma escolha, seja ela pequena ou grande. Por que temos raiva da contínua incerteza da personagem Christine? Por que nos sentimos fascinados pelo Fantasma, mesmo quando ele se torna violento? Por que torcemos para que Raoul pacifique aquele drama logo de uma vez? Por que ora queremos que Christine fique com Raoul, ora com o Fantasma? Porque nós somos ela. O mito do Fantasma da Ópera, portanto, simboliza tudo que nos divide, que nos move, que nos petrifica, que nos expande.

Eu tenho minhas dúvidas se Gaston Leroux sabia que estava escrevendo um romance com esse alcance todo, mas aposto que Andrew Lloyd Weber, que o adaptou para os palcos em 1986 e para o cinema em 2004, sabia muito bem o que estava fazendo. É inegável que ele aperfeiçoou a história. Apesar de um detalhe desnecessário na sua biografia (um trecho da canção “The music of the night” é igual ao de uma ópera de Puccini e um acordo entre as partes solucionou a contenda em sigilo), seu talento é inquestionável, mesmo levando em conta as escolhas seguras que ele fez em termos musicais. Menção honrosa para Charles Hart e Richard Stilgoe que compuseram as letras das canções, hoje tão populares, como All I ask of you, Angel of Music, The Phantom of the Opera, Think of me e a minha preferida, Masquerade: cada uma dessas letras sustentaria um novo e detalhado texto a respeito.

“Christine, é preciso que me ame!”: essa é a primeira frase que o Fantasma da Ópera diz no livro e ela nos coloca no caminho da nossa segunda interpretação.

Érik e Raoul são ambos homens abusivos, que submetem sua amada a um inferno no qual a última coisa que importa é o que ela realmente quer. Há, porém, uma diferença fundamental entre Érik e Raoul: o Fantasma é um abusivo consciente, irremediável, perverso, sádico, psicopata; já Raoul é um abusivo inconsciente, ignorante, tolo, porém não mau.  Na vida há também essas gradações: há aqueles homens (ou mulheres) que sentem prazer em provocar sofrimento e submeter o outro às suas vontades, como também há aqueles que são abusivos por falta de bons exemplos, de uma boa formação, de uma cultura que privilegie a parceria no amor.

Raoul é inconveniente e abusivo no livro, já no musical isso foi bastante suavizado, ele mais tenta ajudar Christine do que ditar seu destino. Quanto ao Fantasma, porém, tanto no musical como no romance de Gaston Leroux, é inquestionável que ele é um abusivo da pior espécie.

Christine não acreditava no Fantasma da Ópera, mas sim no Anjo da Música, prometido por seu pai: “Quando eu estiver no céu, prometo que vou enviar o anjo para você”, ele disse. Desse modo quando começou a ouvir uma voz maviosa em seu camarim que dizia ser o Anjo da Música, voz cujo dono era invisível e lhe oferecia aulas sublimes, ela aceitou. A ilusão era mantida por um engenho arquitetônico (Érik estava atrás das paredes) e outro vocal (o Fantasma treinou sua voz para projetá-la em qualquer lugar). É sempre assim: num relacionamento abusivo há dois responsáveis, mas só um culpado. Christine era parte daquela relação, era também responsável por ela, mas estava iludida quanto à verdadeira natureza do Anjo da Música, ela não agia com malícia e uma agenda prévia como ele, ela era toda entrega e esperança. Essa disposição não se assemelha a incontáveis casos de abuso?

Christine melhorou muito seu canto a partir das aulas, pois o Fantasma era de fato talentoso, como a maioria dos abusivos. Quantas coisas maravilhosas essas pessoas cheias de energia e verve poderiam fazer caso se pautassem pelo que é justo, nobre e bom?

Em apenas três meses Érik, o Fantasma, havia se tornado não apenas o mestre de Christine, mas seu dono. O Anjo da Música (ou a Voz, como ela também costumava chamá-lo) a proibia de se casar e dizia que se ela o desobedecesse ele iria embora para sempre. Essa não era uma ameaça qualquer: o pai de Christine a ensinara que os músicos geniais o eram porque haviam recebido a visita do Anjo da Música. Ela acreditava, portanto, que perder o Anjo seria perder o dom de cantar!

Certo dia, cansado de ser apenas uma voz, o Fantasma sequestra Christine. Ali, nos subterrâneos, ela é apresentada à figura deformada daquele a quem ela acreditava ser um espírito, o Anjo da Música (é preciso dizer que Andrew Lloyd Weber embelezou muitíssimo o Fantasma, no livro ele é uma criatura inteiramente repulsiva). Em seus domínios, Érik submete Christine a todo tipo de constrangimento até o ponto em que ela tenta se matar. Quando finalmente é libertada, ela diz a Raoul: “Se eu não voltar para junto dele, grandes desgraças poderão acontecer”. Raoul pergunta: “Ele a ama tanto assim?”. E ela responde “Ao ponto de cometer um crime!”. O nome desse sentimento não é amor, mas era assim confundido, como o é até hoje. Abusivos não amam ninguém, mas amam usar todos.

No entanto não eram apenas ameaças que faziam com que Christine voltasse ao Fantasma. Havia também o fascínio: “Ele canta!… E eu o escuto e fico!”. Não é segredo que todo abusivo perverso costuma ser cheio de carisma e magnetismo e que mantém a vítima ao seu lado mesmo depois de ela saber que vive uma relação abusiva justamente porque, ao lado da violência, há o encanto. Christine, mais tarde, sintetizaria sua situação dizendo: “É triste, mas eu não era mais dona de mim mesma: eu era um objeto nas mãos dele”.

Assim estava nossa protagonista: sofrendo de um lado chantagens emocionais, exigências descabidas, ameaças e até sequestros feitos pelo Fantasma da Ópera, um abusivo perverso, de outro, suportando a insistência de Raoul em ter seu amor correspondido (no livro isso é muito claro, no musical, não) e em convidá-la sem tréguas a fugir, abandonar a carreira e se casar com ele (coisa que acontecerá no final, com um detalhe nem um pouco desprezível: Christine nunca mais voltará a cantar). Seja com o Fantasma ou com Raoul, Christine não é livre.

Talvez alguém diga que um homem como Raoul, que não sente prazer em fazer Christine sofrer, que até mesmo supõe a estar libertando, é um abusivo que pode ser salvo, que pode ser mudado. De fato, com o tempo, ele pode ser salvo – mas por ele mesmo, mais ninguém. Esse não é um trabalho que compete a sua parceira ou ao seu parceiro. Na vida real, se afastar do abusivo e romper todo tipo de relação com ele é a única saída. É preciso se transformar numa parede, num muro, num monolito de mármore perfeitamente liso e impenetrável, sem nenhuma fresta, rachadura, fissura por onde ele possa entrar. Christine, porém, não se torna um monolito.

No final da história temos uma transformação milagrosa. Novamente sequestrada por Érik, Christine aceita se casar com ele para salvar Raoul. O Fantasma, pela primeira vez, beija alguém e a emoção é tão grande que ele começa a chorar. Cheia de compaixão Christine chora com ele e suas lágrimas se misturam. Esse ato de amor verdadeiro faz com ele a liberte. Na vida real, porém, isso não acontece. Supor que se é capaz de transformar um abusivo perverso é uma estrada para o abismo.

No livro, o Fantasma morre pouco depois de abrir mão de Christine (como se ele não conseguisse existir sem ser perverso). No musical, porém, ele permanece vivo e acompanhando, à distância, os passos da amada.

Uma frase de Gaston Leroux nos mostra o destino de quem, como Christine, se deixa tragar por tudo que é superficial (de acordo com a interpretação mítica) ou por um relacionamento abusivo (no caso do segundo modo de ver a história). A partir do casamento com Raoul, o autor nos informa que “A terra nunca mais ouviria falar da sublime e misteriosa cantora”. Ela esqueceu de si mesma, de sua arte, de sua força. Portanto, seja qual for a perspectiva sob a qual analisarmos “O Fantasma da Ópera”, Christine é um modelo que não deve ser seguido.

 

Se um homem é deserto não pare nele (ou Quem vive de migalha é pomba).

Ontem, ao sair de um prédio cuja calçada está sendo reformada, eu vi uma cena pavorosa: entre argamassa e cascalhos, três pombas famintas atacavam um montinho de terra. Não havia minhocas, milho, pão ou pequenas moscas ali, eu cheguei perto para olhar: as pombas estavam comendo terra!

Por que essa visão foi pavorosa para mim? Porque eu costumo dizer que, em matéria de relacionamentos amorosos, quem vive de migalha é pomba. Essa frase ajuda a manter o amor próprio, a enxergar nosso valor e a não aceitar o naco de miolo de pão que um homem deseje nos oferecer.

Pois é, mas as pombas já estão comendo terra! Será que o mundo romântico se tornou tão árido que as migalhas de outrora se transformaram no nosso ouro? Se um homem que te interessa não te elogia, não faz um agrado, sequer aparece, mas te manda uma mensagem toda semana para manter o contato ativo (leia-se em português claro: poder sair com você quando as opções a, b e c da agenda dele tiverem roído a corda), você deve fechar os olhos, engolir em seco e fingir que isso te sacia? Ou se ele aparece uma vez por mês para uma rapidinha (mesmo que não seja tão rapidinha assim), você deve fingir que o cheiro de homem que ele deixa nos seus lençóis – e que dura algumas horas, não mais – é suficiente?

Há uma canção do U2, “One“, cuja letra diz “você não me deu nada e agora isso é tudo o que tenho”. Quando eu me via nessa posição, de não receber nada além de migalhas e isso ter se transformado em tudo o que eu tinha, por mais que doesse (e doía um rio fedido de dor) eu preferia olhar no olho do demônio e fazer a mais horrenda das perguntas: “Afinal, você quer ou não ficar comigo pra valer?”

Não é fácil, não é agradável, mas é útil. Há homens que não querem ser amados, que não se interessam por você o bastante, que são gays, que têm medo (sim, senhora: isso não é lenda urbana) ou que já namoram – e se constrangem em admitir isso porque, nesse caso, posariam de completos canalhas.

Se um homem é deserto não pare nele.

Algumas pombas podem até comer terra para sobreviver, mas eu insisto no meu mantra: quem vive de migalha é pomba e, definitivamente, nós, mulheres, não gorjeamos.

Obs.: Esta crônica faz parte do meu livro “Os Indecentes”, Editora Rocco.

Mudar de país é a coisa mais desafiadora que você pode fazer.

Eu sei que dor não se mede, como sei também que diante da mesma dificuldade, cada pessoa reage de modo diverso, por isso generalizar é um erro. Ainda assim, ouso dizer que, excetuando-se o enfrentamento de uma tragédia pessoal, mudar de país é a coisa mais desafiadora que você pode fazer – e a mais mal compreendida.

O maior erro que as pessoas que não passaram por essa experiência fazem é confundir viagem com mudança: viajar é muito diferente de se mudar. Quem viaja fica um prazo curto longe de casa, hospedado em hotéis ou algo semelhante, não tem compromisso com nada a não ser passear, se divertir e voltar para casa com a mala cheia de roupas sujas e o celular coalhado de fotos. Viajar pode até ser cansativo, mas é sempre rápido e estimulante, desde que você esteja acompanhado das pessoas certas: nada torna uma viagem pior do que a companhia errada, assim como nada torna uma viagem melhor do que a companhia certa (e ela pode ser apenas você). Em suma: viajar é leve, agradável, um hiato na sua rotina.

Já se mudar de país envolve estresses desconhecidos de quem nunca precisou ou quis ter essa vivência. Do dia para a noite você perderá todas as referências externas. Sua família não estará lá.  Seus amigos? Também não. A internet permite matar um pouco da saudade, mas toda sua rede de apoio sumirá assim que seu passaporte for marcado no aeroporto. Amigos você poderá fazer novos, é claro, mas isso leva tempo (e dependendo do país esse tempo é mais longo). Talvez você se mude com a família, o que teoricamente deixaria as coisas mais fáceis, mas não deixa: uma coisa é seu marido, sua mãe, sua irmã, outra coisa é seu marido, sua mãe, sua irmã sob o mesmo estresse que você numa terra estrangeira. Uma coisa são seus filhos. Outra coisa são seus filhos sob o estresse de viver numa terra estrangeira. Nada vai te preparar para isso. Até as coisas aparentemente mais simples não estarão ao seu alcance: o cabeleireiro no qual você confia suas preciosas madeixas, seus médicos que conhecem o funcionamento do seu corpo, sua podóloga que desencrava suas unhas sem te arrancar sangue, nenhum desses profissionais tão necessários irá na sua mala. Sua alimentação? Será outra. Aqueles produtos que você estava acostumada a consumir e preparar não existirão ou existirão em versões diferentes. A água na qual você se banhará será outra. A língua, mesmo que em Portugal ou Angola, será outra, com expressões e sotaques desconhecidos. As ruas por onde você caminhará e os meios de transporte terão suas próprias regras. Caso você seja praticante de alguma religião terá de encontrar um novo templo, mesmo sabendo que ele nunca será como aquele que você frequentou desde a infância. Os papeis que você terá de preencher, as normas que terá de obedecer, o modo de exercer sua profissão, tudo novo e essa avalanche de estreias te deixará atordoada , insegura e com muito medo. Sobretudo, onde quer que vá você será sempre uma estrangeira: seus direitos e deveres serão diferentes, e o modo como os outros te recebem também. Você se agarrará a pequenas conquistas como ir sempre ao mesmo mercado e conhecer o conteúdo das prateleiras porque rotina é estruturante e nós só percebemos isso quando ficamos sem ela.

Enquanto isso amigos e a família te cobram notícias perguntando sobre os incríveis passeios que eles julgam que você está fazendo quando na verdade você ainda está tentando entender como se paga a conta de luz e como validar as passagens de trem nas estações em que não há catracas, roletas ou qualquer coisa que se assemelhe a isso. Não, você não notou que está há quinze dias sem mandar mensagens porque o tempo passa mais rápido e de modo mais áspero quando você muda de país: suas necessidades se modificam de modo tão absoluto que as miudezas que te moviam na terra natal deixam completamente de fazer sentido.

Quem viaja pode observar os costumes de um país estrangeiro como uma curiosidade, quem se muda tem de absorver esses costumes e torná-los seus ao menos em público (nada mais deselegante do que alguém teimosamente continuar a se portar com os costumes da sua cultura de origem). Em Portugal, por exemplo, você não conseguirá sequer uma informação na farmácia se não disser antes “bom dia” ou “boa tarde”. Pode tentar. Você não vai conseguir. Então ou você compreende que naquele lugar todas as pessoas se cumprimentam antes de qualquer mínima interação ou você será um lamentável embaixador do Brasil. Sim, fora do nosso país somos o tempo todo embaixadores dele.

Mudar de país é a coisa mais desafiadora que você pode fazer, por isso é preciso um motivo muito, muito importante para levar essa ideia a frente. O meu desejo, portanto, é que o seu motivo seja forte o bastante, mais forte do que os obstáculos, pois depois deles finalmente você terá alegria, prazer e paz.

O segredo (genial) das faxineiras.

Não tenho empregada no dia-a-dia. Mas não alcancei a beatitude da autonomia doméstica: uma faxineira me salva a vida uma vez por semana. Não qualquer faxineira, mas Luzia (a quem eu chamo de Lubeca), que faz parte da nossa família desde que eu me entendo por gente. Ela cuidou da minha mãe até seus últimos dias e é, para mim, uma figura materna das mais queridas. (Para quem ainda acha que direitos trabalhistas e afetividade não se misturam, vale dizer que Luzia foi registrada com direito a férias, 13º salário e demais benefícios, já quando veio morar conosco, na década de 70.).

É provável que a sua empregada pertença a esse grupo especialíssimo, como é provável também que ela não passe de uma quase-estranha que limpa sua geladeira.  Existe, porém, algo que todas as faxineiras têm em comum: nenhuma delas, ao ir embora, deixa os objetos da casa no mesmo lugar em que os encontrou. Pode ser mineira, amazonense ou baiana, pode ser senhora ou adolescente, pode ser casada ou ter três namorados, pode adorar criança ou preferir engomar roupa, todas elas fazem a mesmíssima coisa: depois da limpeza, mudam tudo de lugar.

O que move uma empregada a fazer isso? Será que é um desejo incontrolável de ser a dona da casa? Ou será apenas teimosia? Pode ser ainda a constatação muda do nosso mau gosto. Talvez Luzia pense: “A Stella não entende nada de decoração: não vê que a ovelha virada para a porta fica muito melhor do que olhando para a janela?”. Será?

Uma coisa é certa: quando eu ponho os pés em casa, após a faxina da Luzia, gasto uns quinze minutos para colocar os meus porta-retratos, abajures, enfeites, livros, tudo de volta ao seu lugar original. Impressionante, até meus travesseiros – quer coisa mais íntima e pessoal do que travesseiros? – minha faxineira arruma da maneira que ela acha melhor (uma maneira que definitivamente não é a minha).

Pois, alguns meses atrás, eu não aguentei mais a dúvida. Ao chegar em casa e, mais uma vez, ter de acertar a posição da minha luminária feita com um farol de fusca (cuja posição correta, para mim, é com a luz virada para frente e, para a Luzia, é com a luz virada para o teto), passei a mão no telefone e liguei para a casa da minha digníssima ajudante.

–  Lubeca, me responde uma coisa que está me encafifando. Por que você nunca deixa as coisas aqui em casa na mesma posição em que você encontra? Por exemplo, meu porta-retrato verde fica ao lado da TV, mas você toda semana o deixa ao lado do som. Minha agenda, cujo lugar é em frente ao computador, você sempre enfia na gaveta da escrivaninha. Até meu roupão de banho, você tira do gancho atrás da porta e pendura no registro. Por que, em nome de Deus, você faz isso?

Luzia não titubeou.

– Ué, para você saber que eu fiz a faxina. Se eu deixar tudo no mesmo lugar como é que você vai perceber que eu limpei a casa?

Fiquei pasma. Heureca! Luzia é um gênio! E não é que faz todo sentido? Mistério, enfim, solucionado.

lu

Val

(Eu e Valderez Cândida Santana, filha da Luzia: crescemos juntas e seguimos).

Quanto tempo vocês ficaram juntos?

É a primeira vez que você vai ao salão de beleza depois de ele ter te abandonado. Sua autoestima não anda lá essas coisas, é claro, e cuidar da aparência certamente fará você se sentir um pouco melhor.

Nos primeiros dez minutos, você pensa numa lista das coisas que detesta em salões. Primeiro, o barulho: sempre tem uma televisão ligada ou um rádio, competindo com secadores e cacarejos humanoides. O cheiro também te incomoda: cremes, esmaltes, ceras quentes, chapinhas, fumaças de todos os tipos. Porém, o que mais te aborrece é a obrigatoriedade de interagir: sorria, cumprimente, converse. Não, você não quer conversar. Não quer ouvir nada sobre paqueras, sapatos, doenças, artistas, fofocas. Você quer apenas chorar.

– Quanto tempo vocês ficaram juntos?

Seus olhos estão obviamente inchados e a partir deles supuseram um resfriado. Você negou que estivesse gripada e meio sem querer a cabeleireira já sabia – e com ela o salão inteiro – que você havia levado um retumbante pontapé nos fundilhos.

Foi então que uma moça com aquele chapéu de papa com o qual se faz hidratação, uma moça que nem te conhece, pergunta quanto tempo vocês haviam ficado juntos. Por que ela não disse simplesmente “sinto muito” e ficou quieta? Ou apenas manteve sua boca calada, o que já seria uma caridade? Seu rosto e sua postura corporal gritavam que você não queria falar sobre o assunto. Você se mantém em silêncio, mas a papisa repete a pergunta:

– Ei, quanto tempo vocês ficaram juntos?

Você respira fundo e responde:

– Sabe, eu sou contra essa pergunta.

– Contra? Como assim?

A papisa ajeitou a orelha esquerda dentro do chapéu, olhando para você à espera de uma explicação.

Um secador foi desligado, depois outro. Manicures, cabeleireiros e suas clientes sentiram a tensão no ar e esticaram os pescoços. Você aumentou o tom de voz, mantendo, porém, uma estranha suavidade.

– A dor que a gente sente quando é abandonada não tem o tamanho do tempo que durou o relacionamento. A dor tem o tamanho da esperança acumulada numa vida inteira de procura. Se você já sofreu bastante, já se decepcionou muito, a esperança de que finalmente algo bom, algo verdadeiro, algo definitivo acontecesse foi crescendo. E no meio dessa ansiedade apareceu um homem especial. E se esse homem tão esperado for embora, vai fazer diferença o tempo que ele ficou? Vai doer menos? E se ele ficou o tempo de um beijo, mas um beijo que tenha soterrado todos os outros? E se ele ficou só uma noite, mas uma noite que tenha sepultado todas as outras? Isso não seria o suficiente para ele se tornar o homem mais importante de todos? O tempo rígido do relógio não conta no amor.  É por isso que eu acredito que a dor de um rompimento tem o tamanho da nossa esperança, da nossa frustração, da nossa busca. Quanto tempo durou não faz diferença, se, dentro da gente, o amor ainda dura.

Silêncio pós-bombardeio nuclear no salão de beleza. E tudo que você quer, ainda, é apenas chorar.

Beleza: mudanças de fora pra dentro.

A primeira vez que ouvi falar em Botox foi quando uma amiga se separou e de tanto chorar seu rosto vestiu luto: a testa se tornou um labirinto de contrações e os olhos ganharam sulcos que nunca estiveram lá. Era como se uma máscara de dor tivesse sido costurada em seu rosto. Algumas semanas depois, porém, a reencontrei transformada: seu semblante havia voltado ao normal com um toque de serenidade que há muito eu não via. O que acontecera? Seu marido havia voltado arrependido? Largado a amante e rastejado pedindo o asilo do seu amor? Será que ele havia retirado com beijos e carinhos as palavras duras que convulsionaram o rosto da minha amiga? Não, nada disso. Ela havia se submetido a um troço chamado Botox: injeções com toxina botulínica, que paralisam temporariamente certos movimentos, como carrancas, pés de galinha e testas retorcidas de tanto chorar. Claro que o Botox não consertou o rombo em sua alma, mas fez com que ela, ao ver seu rosto mais tranquilo no espelho, sentisse um bem-estar que deu início a outras e mais significativas transformações, como fazer terapia e, mais tarde, mudar de emprego.

Quem supõe que ir à dermatologista ou ao salão de beleza é algo fútil não entende nada de mulher – e menos ainda de sensibilidade. O que as médicas (e médicos) fazem por nós em seus consultórios, o que as cabeleireiras fazem por nós em suas cadeiras mágicas, é algo que influi profundamente no nosso ânimo e muitas vezes é o primeiro passo para sair de uma depressão, para reconstruir um casamento, para voltar ao mercado de trabalho, para iniciar uma dieta, para enfrentar uma cirurgia e mais um sem número de desafios que a vida nos apresenta.

Lembre-se de uma mulher que tenha atravessado um luto rigoroso: você deve conhecer alguma. O que você via no auge da dor? Cinco dedos de raízes à mostra em seu cabelo antes bem cuidado. Quando consegue finalmente se erguer, a primeira coisa que ela faz por si mesma é ir ao salão pintar os cabelos. Ou, caso ela tenha o lindo estilo de Judie Dench ou Helen Mirren, o primeiro sinal de seu retorno à vida é acertar o corte. Repito: cuidar da aparência não é futilidade.

Certamente há quem pare nesse primeiro passo (cuidar da aparência) e dele não saia acabando por se tornar uma caricatura oca de si mesma. Mas eu pergunto: excessos e radicalismos de algumas mulheres anulam os benefícios que outras tantas colhem? Devemos ter vergonha ao pagar em três vezes no cartão um laser clareador de manchas? Devemos nos constranger por retocar a raiz dos cabelos de vinte em vinte dias? Quem nos critica por isso, além de não pagar nossas contas, não sabe que muitas vezes a mudança começa de fora pra dentro.

Eu não represento nenhuma marca, produto, indústria, segmento, sindicato. Eu apenas observo, converso, sinto, e escrevo: esse é o meu trabalho. E o que eu tenho observado, ouvido e sentido é que viver exige coragem – e que ela pode, sim, começar num prosaico salão de beleza ou no consultório da nossa dermatologista.

Whiplash: o psicopata nosso de cada dia.

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Você já teve o desprazer de lidar com um psicopata (ou vários), estou certa. Então vai entender meu grito contra duas ideias do filme “Whiplash”.

Não me entenda mal: o filme é incrível, te mantém preso à cadeira do primeiro ao último minuto, possui um roteiro redondo, atuações impecáveis, mas é preciso notar que os protagonistas defendem, cada qual, filosofias de vida mais que equivocadas: danosas.

Temos Terence Fletcher, um professor de música psicopata. Sem meias-tintas: psicopata, sádico, manipulador, prepotente, desonesto. Sua capacidade técnica e seu carisma são inquestionáveis. Ainda assim, nada muda o fato dele ser um psicopata, sádico, manipulador, prepotente, desonesto.

Temos Andrew Neiman, um aluno de bateria apaixonado por seu instrumento, mais que dedicado: obsessivo.

Numa escola de alto nível eles colidem. Fletcher, o professor, faz o que sabe fazer melhor, ser um psicopata, e Neiman se esforça para corresponder às exigências estapafúrdias de seu mestre tirânico.

Os psicopatas que matam corpos são poucos. Os que ferem, dominam, achacam, pisoteiam, manipulam, roubam, humilham, agridem, estupram, retalham nossas almas estão à solta e sob camuflagens as mais variadas: às vezes são nossos professores, às vezes pais, às vezes amigos, às vezes namorados.

Tal qual o professor de “Whiplash”, esses psicopatas da vida real se apropriam de discursos plausíveis nos quais inserem algumas distorções sutis (que modificam completamente os resultados) e assim conseguem impor suas ideias tortas e se justificar. Não se engane: são monstros. Muito inteligentes e persuasivos, nem por isso menos monstruosos.

Fletcher diz que não se arrepende por torturar seus alunos, pois apenas sob o fogo dessa tortura é possível provocar a dedicação necessária a fim de torná-los músicos excepcionais. Quem não suporta o processo, continua Fletcher, apenas prova que não possui a firmeza do gênio.  É preciso disciplina nos estudos, o conceito em tese é correto, Fletcher, porém, faz as tais distorções que justificam seu comportamento doente. Submetidas ao seu sadismo há pessoas que se suicidam, que seguem de almas mancas para toda a vida, que abdicam de um sonho por serem sensíveis demais. Monstros sempre vencem – se a gente se deixar enganar.

Depois de suportar o insuportável, Neiman dá a volta por cima, para ser, em questão de minutos, dominado pelo professor que, além de retomar o controle, termina o filme trocando com seu aluno um olhar de suposta cumplicidade que justificaria sua didática primata. Não, não! Neiman não se tornou um virtuose por causa da tortura imposta pelo professor: ele se tornaria um gênio da bateria com ou sem Fletcher, mas, infelizmente, o filme dá a entender o contrário.

Por fim, mas não menos importante: num jantar, Neiman diz que preferiria morrer jovem, sem grana e drogado como Charlie Parker a viver 90 anos tranquila e anonimamente. Ora, Charlie Parker, Jimi Hendrix, Janes Joplin, Kurt Cobain, Amy Winehouse não se tornaram lendas por terem se enfiado até o pescoço nos vícios. Estamos falando e continuaremos a falar deles apenas por uma coisa: seu imenso talento musical. Eles eram talentosos apesar dos vícios, não por causa deles. Esse endeusamento dos excessos, da vida louca, do viver 10 anos a 1000, é um equívoco absoluto – muito usado, aliás, pela propaganda para nos vender produtos desnecessários.

Portanto, se você não assistiu Whiplash, por favor, assista. Mas não se esqueça de que os psicopatas e suas ideias horrendas, disformes, anormais, estão camuflados em muitos lugares, inclusive em nossas vidas e nos bons filmes.